Rio Branco, 15 de julho de 2026.

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El Niño pode reduzir umidade do solo e afetar produção agrícola no Acre

Período de estiagem mais extenso pode comprometer produção agrícola – Foto cedida

A confirmação do fenômeno El Niño e a perspectiva de que ele alcance forte intensidade nos próximos meses acendem um alerta para a produção agropecuária no Acre. O primeiro Painel El Niño 2026-2027, divulgado por órgãos federais de monitoramento climático no mês de junho, indica que a combinação de chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal na Região Norte poderá reduzir a umidade do solo, aumentar o estresse hídrico e comprometer atividades como a pecuária, as culturas perenes e a agricultura familiar.

Elaborado em conjunto pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB) e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), o boletim confirma que o El Niño já está estabelecido e aponta mais de 90% de probabilidade de permanência do fenômeno até o início de 2027, com possibilidade de atingir intensidade forte ou muito forte entre a primavera e o verão.

Para o trimestre de julho a setembro, a previsão climática indica maior probabilidade de precipitações abaixo da média em áreas do oeste e sul da Região Norte, além de temperaturas superiores aos padrões históricos em praticamente todo o país. Segundo o documento, essa combinação favorece o aumento da evaporação, reduz a umidade do solo e eleva o risco de deficiência hídrica nas atividades agropecuárias.

Riscos ao setor agrícola

No capítulo dedicado aos impactos na agricultura, o painel destaca que, na Região Norte, as condições climáticas previstas podem provocar prejuízos às pastagens, às culturas perenes — como café, cacau e fruticultura — e à agricultura familiar, altamente dependente da regularidade das chuvas. O cenário também pode afetar a disponibilidade de água para os rebanhos, especialmente durante o auge da estiagem amazônica.

Embora o Acre não enfrente atualmente um quadro severo de seca, os especialistas ressaltam que a influência do El Niño costuma se intensificar justamente ao longo do segundo semestre. O relatório observa que a Região Norte apresenta hoje uma das situações mais favoráveis do país em relação à seca, mas lembra que o fenômeno, associado ao aquecimento do Atlântico, pode alterar significativamente o regime de chuvas nos próximos meses.

Isso vai ao encontro do que afirmou ao Portal Acre a pesquisadora Sonaira Silva, do Campus Floresta da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Cruzeiro do Sul, onde ela também coordena o Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente — LabGAMA. Em maio passado, quando perguntada sobre os possíveis efeitos do fenômeno para o Acre, ela disse que a combinação com o aquecimento das águas do Atlântico pode gerar um impacto relevante para o estado.

“O El Niño, de forma geral, atinge pouco o Acre. Atinge com mais força Amazonas, Pará e Mato Grosso. Mas se vier junto com o aquecimento do Oceano Atlântico, como foi em 2024, vai chegar com força no Acre também. O El Niño ocorre de um ano para outro  [neste caso 2026/2027]. Se não for muito forte nesse verão, tem a preocupação estendida para 2027. A equação não é simples, são muitos fatores para analisarmos”, explicou.

Planejamento

Para produtores rurais acreanos, o momento é considerado estratégico para o planejamento das atividades. O acompanhamento das previsões meteorológicas, a adoção de medidas para conservação da umidade do solo, o manejo adequado das pastagens e o uso racional dos recursos hídricos são apontados como ações importantes para reduzir os impactos da estiagem.

O painel também chama atenção para o aumento do potencial de queimadas em decorrência da combinação entre calor intenso, redução das chuvas e vegetação mais seca. O Acre aparece entre as áreas brasileiras com maior suscetibilidade à propagação de incêndios florestais durante o trimestre de julho a setembro, período em que tradicionalmente ocorre o pico da estação seca na Amazônia.

Diante desse cenário, os órgãos federais recomendam que estados e municípios reforcem o monitoramento climático, atualizem seus planos de contingência e mantenham ações preventivas para minimizar os impactos do El Niño sobre a produção agrícola, o abastecimento de água e a ocorrência de queimadas.

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