Rio Branco, 17 de julho de 2026.

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Quatro anos após chacina que chocou Brasiléia, condenações relembram guerra do crime na fronteira do Acre

Crimes estão entre os mais violentes da recente história do Acre – Foto cedida

As condenações de quatro homens pelo Tribunal do Júri, nesta semana, encerram judicialmente, pelo menos em primeira instância, um dos episódios mais violentos da história recente do Acre. Além de colocar um ponto final em um processo criminal, o julgamento traz à memória um período em que Brasiléia e Epitaciolândia viveram sob o impacto direto da guerra entre organizações criminosas que disputavam o controle da fronteira com a Bolívia.

Em abril de 2022, a região do Alto Acre enfrentava uma sucessão de homicídios, atentados e execuções que mudaram a rotina das duas cidades acreanas, separadas de Cobija, capital do departamento boliviano de Pando, apenas por duas pontes internacionais.

Naquele contexto, a fronteira deixava de ser apenas uma linha geográfica para se tornar um corredor estratégico para o tráfico internacional de drogas e para o envio de veículos roubados ao país vizinho. A circulação praticamente livre entre os dois lados, somada às diferenças de fiscalização e às limitações operacionais das forças de segurança, criava um ambiente favorável para a atuação de grupos criminosos. Foi nesse cenário que ocorreu uma das chacinas de maior repercussão da história do estado.

Uma madrugada de terror

Madrugada de 5 abril no bairro Leonardo Barbosa, local da chacina – Foto cedida

Na madrugada de 5 de abril de 2022, moradores do bairro Leonardo Barbosa, em Brasiléia, acordaram assustados com uma sequência de disparos de arma de fogo. Segundo as investigações, cerca de dez homens armados invadiram uma residência após se apresentarem como policiais. Dentro da casa estavam Lucas Barbosa Bandeira, de 23 anos, Wanderson Souza e Silva, de 18, e o adolescente André Gustavo Sales de Oliveira, de 16 anos. Os três foram executados com dezenas de tiros.

Enquanto as equipes da Polícia Civil e da Polícia Militar ainda trabalhavam na ocorrência, a violência continuou. Poucas horas depois, outro homicídio foi registrado no bairro Nazaré. Em seguida, uma tentativa de assassinato deixou um homem gravemente ferido no bairro Samaúma I, que precisou ser transferido de helicóptero para Rio Branco.

A sequência de ataques espalhou medo entre os moradores da fronteira. Naquele período, relatos de invasões de residências por criminosos armados tornaram-se frequentes, assim como execuções atribuídas à disputa entre facções rivais.

A fronteira como território estratégico

Brasiléia e Epitaciolândia mantêm uma integração praticamente contínua com Cobija. As cidades brasileiras se ligam à capital boliviana pela Ponte Wilson Pinheiro, sobre o Rio Acre, e pela Ponte Internacional, sobre o histórico igarapé Bahia. A intensa circulação diária de pessoas e veículos favorece o comércio e a integração entre os municípios, mas também representa um desafio permanente para os órgãos de segurança.

A região é considerada uma das principais portas de entrada de drogas produzidas nos países andinos, especialmente cocaína e skunk, que seguem pela malha rodoviária brasileira para outros estados. No sentido inverso, veículos roubados ou furtados frequentemente atravessam a fronteira em direção ao território boliviano.

Nos últimos anos, operações conjuntas das forças estaduais e federais intensificaram o combate ao tráfico, com aumento das apreensões de drogas e armamentos. Ainda assim, especialistas e autoridades reconhecem que o enfrentamento ao crime organizado na faixa de fronteira continua sendo um desafio complexo, que depende da atuação integrada entre Brasil e Bolívia.

O desfecho judicial

Quatro anos depois da chacina, o caso chegou ao Tribunal do Júri. As investigações da Polícia Civil, conduzidas com apoio da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), do Núcleo de Inteligência da corporação e da Polícia Rodoviária Federal, apontaram que os envolvidos integravam o Comando Vermelho. Após cerca de dez horas de julgamento, o Conselho de Sentença condenou os quatro acusados.

Natanael do Nascimento Salgueiro, o “Natan”, recebeu pena de 68 anos de prisão. Cleudo Freitas Rodrigues, conhecido como “Telzinho” ou “Flog”, foi condenado a 54 anos. Gabriel Sombra de Andrade recebeu pena de 24 anos, enquanto Junior de Souza Borges foi sentenciado a 75 anos de reclusão.

As penas somam 221 anos de prisão

Embora a decisão represente o encerramento de um dos processos criminais mais emblemáticos da violência registrada no Alto Acre, ela também remete a um período em que a disputa entre organizações criminosas transformou a fronteira acreana em palco de uma escalada de homicídios que marcou profundamente a população de Brasiléia, Epitaciolândia e Cobija.

Passados quatro anos, as condenações oferecem uma resposta da Justiça a um dos crimes que simbolizaram aquele momento. Ao mesmo tempo, reforçam que os desafios da segurança pública na fronteira continuam exigindo ações permanentes diante de uma dinâmica criminal que ultrapassa os limites entre dois países.

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