
No tronco linguístico arawak, falado pelo povo Manchineri da Terra Indígena Mamoadate, na região de Sena Madureira, no Acre, diz-se “Hihlewlu pantshiko yinuwajya”, que significa: “A paz começa em casa”. A frase é repetida neste mês de enfrentamento à violência doméstica e familiar, o Agosto Lilás. E foi a mensagem principal do primeiro círculo de construção de paz realizado com homens e mulheres Manchineri, na aldeia Jatobá, no rio Iaco, na terça-feira, 18, promovido por servidoras e servidores do Centro de Justiça Restaurativa (Cejures), do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
O encontro inédito foi um pouco diferente do habitual: teve que se adaptar à realidade, ao contexto e à cultura do lugar. A facilitadora Mirlene Taumaturgo e o facilitador Fredson Pinheiro, do Cejures, organizaram a peça de centro da roda, com tapete redondo, palavras de respeito impressas e elementos referentes à natureza e ligados à identidade indígena. A servidora Mirlene conduziu o círculo com perguntas e convidou todos a pensarem em suas responsabilidades dentro das aldeias e de suas casas. “Não viemos aqui trazer culpa, mas convidar vocês a refletirem sobre o que podem fazer para melhorar, prevenir a violência”, disse.
Como uma grande parte das pessoas participantes não compreendia bem o português, o professor indígena Jair Manchineri traduziu os diálogos do arawak para o português e vice-versa. Além de auxiliar nisso, o professor ressaltou o quão importante é explicar e levar conhecimento sobre leis e Justiça para as comunidades: “Gostaria que vocês viessem encostar em todas as aldeias, dando esse aviso em cada aldeia da Terra Indígena Mamoadate. Isso é muito bom para nós”.
A atividade iniciou-se pela manhã com o círculo em que mulheres e homens falaram sobre respeito, harmonia dentro de casa e diálogo, tudo buscando respeitar as tradições do povo. Na parte da tarde, a equipe do Judiciário conversou sobre a Lei Maria da Penha, tirando dúvidas, discorrendo sobre os tipos de violência doméstica e a importância da lei para garantir o direito à vida das mulheres, além de conscientizar as pessoas presentes a disseminarem os conhecimentos adquiridos.
A indígena Carcia Manchineri participou dos dois momentos e explicou que esse aprendizado contribui para proteger as mulheres indígenas, que sofrem com esses crimes. “É gratificante ter a Justiça e a Funai aqui falando sobre o assunto da Lei Maria da Penha, porque nós, mulheres indígenas, também sofremos violência doméstica. Não é só isso, mas sofremos em outras coisas e hoje a gente está aprendendo. Hoje nossa convivência é misturada com a do branco, então temos que aprender a praticar nosso costume e o do branco também.”
Nascer e ser Manchineri
No diálogo realizado na parte da tarde, foram apresentados exemplos cotidianos e citados costumes antigos que não podem ser revividos, assim como foram tratados diversos temas, como: presença de drogas e bebidas nas aldeias, incidência de crime organizado nas comunidades, direitos de crianças e adolescentes, abuso infantil, feminicídio e uso excessivo de celular por jovens e adultos.
A servidora da Funai Shyrlene Oliveira da Silva Huni Kuin tirou dúvidas e ressaltou que a mulher indígena tem um papel fundamental na sustentação das comunidades. Shyrlene acompanha a população indígena encarcerada e disse que “nada do que vemos das pessoas indígenas encarceradas vem da cultura dos povos, mas dos costumes dos brancos; e se o indígena fez crime do branco, é punido como branco. E em briga de marido e mulher, tem um monte de gente interferindo e cuidando para proteger as mulheres. Quando falamos do povo Manchineri, queremos lembrar das coisas boas, mostrando a luta desse povo, a cultura. Esperamos que a cultura desse povo permaneça viva pelo que é dentro do povo: nascer Manchineri e ser Manchineri”.
Com informações de TJAC








