Uma série histórica do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), organizada a partir de dados da Estação Pluviométrica Convencional de Rio Branco mostra que a capital acreana passou a registrar com maior frequência dias de calor extremo nas últimas décadas.
A linha do tempo é representada nesta reportagem por um gráfico elaborado para o Portal Acre pela pesquisadora Sonaira Silva, do Campus Floresta da Universidade Federal do Acre (Ufac) em Cruzeiro do Sul, de onde coordena o Projeto Acre Queimadas.
O levantamento considera o número de dias de cada ano em que a temperatura máxima ultrapassou 35°C e revela uma mudança importante no comportamento das temperaturas, sobretudo a partir da segunda metade da década de 2010.
A série, que começa em 1984, apresenta oscilações bastante acentuadas nos primeiros anos. Houve períodos de calor intenso, como em 1987, quando foram registrados 56 dias acima de 35°C, e em 1998, com 35 dias. Também aparecem picos em 2005, com 53 dias, e 2010, com 47.
A partir de 2015, porém, os registros passam a ocorrer em patamares significativamente mais elevados. Naquele ano foram 69 dias acima de 35°C, seguidos por 75 dias em 2016. Depois de uma redução para 52 dias em 2017 e 31 em 2018, o número voltou a subir para 47 em 2019.
Anos recentes concentram os maiores registros
O período mais extremo da série aparece entre 2020 e 2023. Em 2020, Rio Branco teve 95 dias com temperaturas acima de 35°C, o maior número de toda a série apresentada. Em 2021 foram 75 dias e, em 2022, novamente um patamar excepcional, com 94 dias. Em 2023, foram 85 dias. A frequência diminuiu posteriormente, mas permaneceu elevada em relação a boa parte da série histórica: 59 dias em 2024 e 39 em 2025.
O comportamento mostra que os episódios de calor muito intenso deixaram de aparecer apenas como picos isolados. Nos últimos anos, tornou-se mais comum a ocorrência de dezenas de dias por ano acima da marca de 35°C.
2026 ainda tem dados parciais
O gráfico apresenta 10 dias acima de 35°C em 2026, mas o dado está explicitamente identificado como parcial. Por isso, não é possível compará-lo diretamente com os números dos anos completos.
O dado parcial, contudo, ocorre em um momento de forte calor na capital. Nos últimos dias de agosto, Rio Branco registrou uma sequência de temperaturas elevadas e chegou a 37,1°C no dia 30, estabelecendo o novo recorde de temperatura máxima de 2026. A marca superou os 36,4°C registrados nos dias 27 e 29 de agosto.
Assim, os 10 dias apresentados no gráfico não representam o total de 2026 e ainda poderão aumentar com a atualização da série. “O padrão de temperaturas altas deve continuar setembro e outubro”, prevê Sonaira Silva.
El Niño aparece em alguns dos períodos mais quentes
O gráfico também destaca períodos de El Niño forte ou muito forte, permitindo observar que alguns dos grandes aumentos na quantidade de dias acima de 35°C coincidem com esses episódios. É o caso de 1987-1988, 1997-1998 e, mais recentemente, 2015-2016, quando Rio Branco teve 69 e 75 dias acima de 35°C, respectivamente.
“O El Niño sempre causa muito essa oscilação, principalmente as temperaturas mais altas em todo canto, e o planeta como um todo está aqui super aquecido. Foi o que a gente viu na Europa, agora, com essas ondas de calor, então todos os oceanos do planeta estão super aquecidos e isso tem influência direta pra gente”, enfatiza Sonaira.
A relação, porém, não significa que o El Niño seja responsável sozinho pela tendência observada. Os maiores valores da série também ocorreram em anos que não estão destacados no gráfico como episódios de El Niño, como 2020 e 2022.
O levantamento, portanto, aponta para um cenário em que fenômenos climáticos como o El Niño podem contribuir para intensificar determinados períodos de calor, mas a série de longo prazo mostra uma maior frequência de temperaturas superiores a 35°C em Rio Branco.
“Então, dá até pra contrapor essas falácias que ecoam aí na internet de que o El Niño não tinha influência nenhuma no Acre. Eu acho tão ruim, mesmo que a gente tem que dar voz a todos, mas há um tom de desinformação muito grande no que se fala, e isso reverbera bastante”, conclui a cientista.









