Por Márcia Oliveira
O pleito eleitoral está se aproximando e confesso que este é o período em que mais temo por nossa capacidade de conversar.
Fora da eleição, a frase “contra fatos não há argumentos” ainda resiste. Na eleição, ela é praticamente revogada.
É na eleição que vemos de forma mais nua e crua o fenômeno que mais me preocupa hoje: pessoas que ignoram totalmente os fatos e desenvolvem discursos apenas para satisfazer sua convicção. Não importa o que seja esclarecido, com documento, áudio, prestação de contas… Se o fato atinge o meu candidato, é fake. Se atinge o adversário, é prova definitiva, mesmo sem nenhuma comprovação.
Deixou de existir a investigação imparcial. Passou a existir apenas a necessidade de criar uma narrativa que vá de acordo com quem eu defendo.
E isso é um perigo imenso para a sociedade.
Na eleição, a fake news deixa de ser apenas desinformação e vira estratégia de poder. Ela funciona assim:
1. Primeiro, ela te isola. O algoritmo percebe sua preferência e começa a te entregar apenas o que confirma que seu lado é santo e o outro é demoníaco. Você não recebe mais informação, você recebe munição.
2. Depois, ela te faz desacreditar de tudo. O objetivo final da fake news eleitoral não é fazer você acreditar em uma mentira específica. É fazer você não acreditar em mais nada. Nem na Justiça, nem na imprensa, nem na universidade, nem no professor. Se tudo é fraude, nada precisa ser apurado. Se todas as instituições estão vendidas, meu candidato está livre para dizer o que quiser.
3. Por fim, ela transforma o vizinho em inimigo. Quando eu não discuto mais propostas para a educação, para a saúde, para o meio ambiente, para a economia, mas apenas narrativas sobre quem é “do bem” e quem é “do mal”, eu não estou mais fazendo política. Estou fazendo guerra santa. E na guerra santa, não há eleitor, há fiel.
O que está em jogo na eleição não é apenas quem ganha. É se vamos continuar tendo um chão comum de fatos para, depois da eleição, conseguirmos conviver.
Se a cada eleição a gente destrói um pouco mais a confiança nas urnas, nos institutos de pesquisa, nas instituições, no sindicato, na ciência, o que sobra para governar depois? Sobram apenas convicções feridas e uma sociedade ingovernável.
Por isso, faço aqui um apelo como educadora, não como cabo eleitoral de ninguém:
Nestas eleições, antes de compartilhar, faça o exercício mais difícil que existe hoje: o exercício da imparcialidade por cinco minutos.
Pergunte-se:
– Eu compartilharia essa mesma denúncia se fosse contra o meu candidato?
– Eu conferi essa informação nos sites oficiais, no portal da transparência, na fonte original, ou apenas recebi no meu grupo de WhatsApp?
– Essa mensagem quer me informar ou quer me indignar? Porque quem quer te informar traz dados. Quem quer te usar, traz ódio.
A democracia não morre quando discordamos. Ela morre quando deixamos de acreditar que existe um fato que pode corrigir a todos, independentemente do lado.
Que nestas eleições, a gente possa amadurecer também nosso voto. Que nossas escolhas eleitorais também amadureçam. Saindo da torcida e voltando para os fatos, para os projetos, para o Brasil e para o Acre real.







