Rio Branco, 15 de janeiro de 2026.

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Dercy Teles revela “Chico real”, critica apagamento de sua memória e diz que os ideais do líder seringueiro “morreram faz tempo”

Dercy foi a primeira mulher a presidente um sindicato rural no Brasil – Foto: acervo pessoal

A poucos dias de se completarem 37 anos do assassinato de Chico Mendes, uma das vozes mais emblemáticas do movimento social nascido nos seringais de Xapuri revisita o legado do líder seringueiro sob uma ótica rara — e, para muitos, desconcertante. Dercy Teles de Carvalho Cunha, camponesa, evangelizadora da Teologia da Libertação, educadora popular e uma das primeiras mulheres a presidir um sindicato rural no Brasil, rompe consensos ao defender que o “Chico real” foi transformado em símbolo à custa de apagamentos e simplificações.

Nascida no Seringal Boa Vista, em 1954, Dercy participou dos empates, enfrentou fazendeiros, viu companheiros morrerem e ajudou a consolidar o sindicalismo rural acreano. De dentro dessa história, ela faz críticas firmes ao que chama de “desmonte” das organizações comunitárias — entre elas o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, que ela presidiu mais de uma vez — processo que, segundo ela, contribuiu para silenciar a memória política de Chico Mendes.

Nesta breve entrevista ao Portal Acre, concedida por telefone diretamente da colocação Pimenteira, onde vive, Dercy afirma que conviveu com um Chico “solidário e companheiro”, mas também resistente a críticas. Diz, ainda, que ele não era ambientalista, e sim um sindicalista profundamente ligado à sobrevivência extrativista. Para ela, boa parte dos ideais do líder seringueiro “morreu faz tempo”, à medida que conflitos internos se agravam sem mediação das entidades que deveriam representar a categoria.

Portal Acre — Como era sua convivência com Chico Mendes no cotidiano das lutas? Houve momentos de conflito, alinhamento ou troca que marcaram sua trajetória pessoal?

Em entrevista ao Portal Acre, Dercy falou sobre convivência e legado de Chico Mendes – Foto: acervo pessoal

Dercy — Olha, a convivência com Chico Mendes era uma convivência de trabalho e havia muito consenso entre nós, mas também tinha conflito, até porque o Chico era uma pessoa que não aceitava crítica, e eu sempre fui uma pessoa muito crítica. Quando eu via que era necessário falar, eu falava. Geralmente, quando eu fazia esses questionamentos, ele não gostava. Mas uma das coisas que me marcou muito nessa trajetória foi o companheirismo dele, a solidariedade dele para com as pessoas, inclusive comigo. Uma vez ele me livrou de uma prisão. Nunca fui presa na minha vida e estive na iminência de ser. E só não fui por conta da intervenção dele e do doutor João Maia, que era o delegado da CONTAG. O Chico já era o presidente do sindicato na época.

Portal Acre — Qual é, na sua visão, a leitura mais verdadeira sobre Chico como pessoa — não o símbolo, mas o ser humano com quem você trabalhou e lutou?

Dercy — O Chico era uma pessoa simples, humilde, sem ambição. Era uma pessoa honesta, de conduta invejável, que nunca deixou rastros que desabonassem sua trajetória. Ele teve várias oportunidades de se corromper ou de “se dar bem” na vida, mas, em função da conduta dele, sempre foi muito fiel àquilo que fazia — simplesmente honesto.

Portal Acre — O que o Brasil ainda não compreende sobre o Chico real, aquele que a senhora conheceu nos seringais?

Dercy — Olha, uma das coisas que acho que o Brasil não conhece — a maioria das pessoas não conhece — é que o Chico tinha origem rural e que essa raiz profunda era a grande razão da sua causa. Ele era um sindicalista defensor da classe dele, não era ecologista nem ambientalista. Ele defendia a categoria da qual fazia parte, e claro que nós todos defendíamos a floresta, porque nossa sobrevivência dependia do extrativismo. Sem extrativismo, sem floresta, não haveria sobrevivência.

Portal Acre — Como a senhora enxerga o momento atual da memória de Chico Mendes em Xapuri? Há um processo de apagamento político, ideológico ou cultural da importância dele?

Dercy — Sem dúvida nenhuma. Esse apagamento começou com o desmonte do sindicato e das associações comunitárias, que eram quem mantinha viva a história do Chico Mendes. Hoje, como se divulga isso aos trabalhadores jovens, se muitos moradores da Resex eram crianças quando ele foi morto ou nasceram depois? Quase 37 anos depois, não tem ninguém contando a verdadeira história — a do Chico real. Hoje ouvimos falar de Chico Mendes apenas em dezembro; depois, não se fala mais. Aqueles que assumiram o comando para manter viva essa memória tomaram outro rumo. Então, com certeza, há um apagamento político, ideológico e cultural da importância que ele teve para a classe trabalhadora rural.

Portal Acre — A senhora acredita que o comunitarismo que existia nos anos 1980 se perdeu? O que explica as brechas internas que permitem conflitos, grilagem, vendas ilegais de colocações e disputas como a da Maloca?

Dercy — Olha, a questão comunitária desapareceu totalmente. Tudo isso que acontece hoje — disputas, vendas ilegais e conflitos — é falta de organização da sociedade civil que faça esse meio de campo, que intermedeie, que faça aquela política social entre os trabalhadores, que mostre que a unidade de classe é o mais importante. E isso não existe mais. Com relação à grilagem, as pessoas se aproveitam da desorganização para invadir as terras. Há casos em que os próprios moradores vendem as colocações. Essa área da Maloca, até 2008, não era reconhecida como parte da Reserva — aquela placa foi colocada naquele ano, durante a operação Resex Legal. Era uma área de colocações grandes, com muitos castanhais, mas com a falência dos produtos extrativistas, os moradores se viram no direito de lotear, porque não havia mais necessidade de manter tanta terra se a castanha e a borracha perderam valor.

Portal Acre — Na sua opinião, os ideais dele ainda estão vivos?

Dercy — Eu creio que eles morreram faz tempo. A prova disso é que, nesses conflitos dentro da reserva, não se ouve uma voz que faça qualquer intermediação. Nem a Associação dos Moradores e Produtores (Amoprex), nem o Conselho Nacional dos Seringueiros — hoje Conselho Nacional das Populações Extrativistas —, nem a direção do sindicato. Não existem mais, a não ser no nome. Não se fala nessas entidades nem no rádio, nem na televisão, muito menos nas redes sociais; apenas de forma pontual, como o Comitê Chico Mendes, que aparece em dezembro para colocar a história dele em evidência. Isso tinha que ser contínuo, porque hoje temos uma nova geração que não conhece essa história, não valoriza a floresta, não valoriza o setor rural. Não sabe extrair seringa, porque a profissão dele é ser peão de boi, que é o que impera hoje na zona rural. Falo com propriedade porque estou a quatro quilômetros da Resex e vejo, todos os dias, no meu ramal, dezenas de caminhões de boiadeiro transportando gado — e não vejo nenhum transportando borracha. Daqui uns dias deve aparecer castanha, mas borracha… não ouço nem falar.

Dercy critica “morte” dos ideais de Chico Mendes – Foto: cedida

Portal Acre — Que mensagem mandaria aos jovens de hoje que pensam em dar seguimento aos ideais de Chico Mendes?

Dercy — Olha, o que eu deixo como mensagem para a juventude de hoje é que procurem conhecer o Chico real, aquele homem simples, honesto, comprometido com a classe trabalhadora rural. Não se deixem levar apenas pelo símbolo, pela figura criada depois da morte dele. Busquem entender o que realmente foi a luta dele, porque só assim vocês vão saber qual caminho seguir. A juventude precisa voltar a olhar para a organização comunitária, que era a base de tudo. Sem unidade, sem associação forte, sem sindicato vivo, não existe movimento. A floresta que vocês dizem querer defender só vai existir de pé se houver gente organizada para lutar por ela — e não apenas discursos de ocasião. E estudem, conversem com quem viveu essa história, porque muitos jovens hoje não conhecem mais o extrativismo, não sabem o valor da floresta para o modo de vida que sustentou gerações. Se querem honrar os ideais do Chico, é preciso resgatar isso: a verdade, a união e o compromisso com a coletividade. O resto é só fala bonita.

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