Rio Branco, 17 de janeiro de 2026.

CASA CIVIL DIA 24

OPINIÃO: Um Natal verdadeiramente feliz não se deseja: constrói-se todos os dias

A data máxima da cristandade carrega um simbolismo que vai muito além do calendário litúrgico. Ela fala de amor, de paz, de harmonia, de partilha — conceitos que se tornaram profundamente contraculturais em um tempo marcado pela polarização política, pela banalização do ódio nas redes sociais e por estatísticas persistentes de violência contra mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIA+.

Vivemos uma era em que o discurso público foi definitivamente sequestrado pela lógica do “nós contra eles”. A política, que deveria ser instrumento de mediação e construção coletiva, transformou-se em arena de hostilidade permanente. Nas redes sociais, a crueldade ganhou curtidas, a desinformação virou estratégia e a empatia passou a ser tratada como fraqueza. Nesse ambiente, o ódio deixa de ser exceção e passa a ser método.

Os números não mentem — e tampouco consolam. Mais um ano se encerra com índices alarmantes de feminicídio, agressões motivadas por gênero, orientação sexual ou identidade de gênero. São vidas interrompidas, corpos violentados e histórias apagadas, enquanto parte da sociedade insiste em relativizar, justificar ou silenciar. A violência não nasce do nada: ela é cultivada em discursos, normalizada em piadas, legitimada por omissões.

É justamente aí que o simbolismo da principal data do cristianismo confronta nossa incoerência coletiva. Celebrar essa data não pode se limitar a ritos, frases prontas ou votos genéricos de “Feliz Natal”. O centro da mensagem cristã: amar o próximo — que deve incluir, proteger os vulneráveis e romper com a lógica da vingança e da exclusão — entra em choque direto com a prática cotidiana de uma sociedade que escolhe odiar, dividir e ferir.

Desejar um “Feliz Natal” é fácil. Difícil é assumir a responsabilidade que isso exige. Uma cultura de paz e amor não nasce do acaso, nem da fé dissociada da ação. Começa quando revisamos nossas próprias atitudes: o que compartilhamos, o que incentivamos, o que toleramos em silêncio. Começa quando entendemos que neutralidade, diante da injustiça, é uma forma de conivência.

Ter um Natal verdadeiramente feliz exige escolhas concretas. Exige educação que forme cidadãos críticos, não apenas eleitores apaixonados. Exige políticas públicas efetivas de proteção às mulheres e à população LGBTQIA+, acompanhadas de orçamento, fiscalização e vontade política. Exige líderes — religiosos, políticos e sociais — que se posicionem com clareza contra a violência, sem relativizações convenientes. Exige, sobretudo, humanidade.

Se essa data máxima da cristandade ainda significa algo, que seja um convite incômodo à coerência. Que nos lembre que fé sem ética é um saco vazio, que esperança sem ação é mera ilusão e que amor proclamado, mas não praticado, é apenas retórica. Um Natal Feliz não se deseja: constrói-se, todos os dias, com coragem, responsabilidade e compromisso real com a vida do outro — especialmente daqueles que mais sofrem.

Raimari Cardoso é jornalista e colaborador do Portal Acre.

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