Rio Branco, 13 de fevereiro de 2026.

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Acre registra menor índice de queimadas em 24 anos e aponta caminhos para 2026

Número menor de queimadas ajuda a “frear” o avanço da devastação na floresta amazônica no Acre – Foto: Uêslei Araújo/Sema

Indicadores ambientais de 2025 mostram que o Acre vive um cenário histórico em relação às queimadas. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) por meio da plataforma Programa Queimadas, o estado registrou 2.184 focos de queimadas em 2025, uma redução de 74% em comparação com 2024, quando foram contabilizados 8.658 focos. É o menor índice do estado desde 2001, ano em que foram detectados 829 focos de queimadas — um recorde até então.

Especialistas e autoridades ambientais consultados no decorrer do ano destacam que esse resultado expressivo não é fruto de um único fator, mas sim da combinação entre condições climáticas menos extremas, ação integrada do poder público e ações de conscientização junto à população.

Para a pesquisadora Sonaira Silva, do Campus Floresta da Universidade Federal do Acre em Cruzeiro do Sul e coordenadora do Projeto Acre Queimadas, a distribuição mais regular das chuvas durante o período seco de 2025 foi determinante para o quadro em que o estado encerra o ano.

“Tivemos um padrão de chuva mais espaçado, o que diminuiu a janela de tempo seco prolongado necessária para queimar material vegetal — mesmo pastagens e áreas de capoeira”, explica a cientista indicando que a climatologia mais favorável reduziu, portanto, o potencial de ignição e propagação de focos de calor no estado.

Influência das ações de comando e controle

Autoridades estatais, por sua vez, ressaltam que os resultados também refletem uma atuação mais estratégica e articulada entre órgãos estaduais, federais e forças de segurança. O Governo do Acre destaca que, em 2025, o estado intensificou suas ações preventivas e repressivas. Por meio da Sala de Situação Operacional, que integra inteligência e monitoramento geoespacial em tempo real, recursos foram mobilizados conforme a necessidade, priorizando regiões mais afetadas.

De acordo com o governo, esse novo modelo de atuação contribuiu para uma redução de cerca de 77% na densidade de focos de calor, em comparação ao ano anterior. Mais de 2 mil atividades educativas foram realizadas, alcançando diretamente mais de 100 mil pessoas com mensagens de prevenção e boas práticas ambientais.

“A redução dos índices é resultado da ação integrada do governo do Acre, juntamente com os órgãos federais e municipais. Essas ações têm caráter permanente, preventivo e repressivo, mas também educativo. Trabalhamos para conscientizar a população e os produtores rurais sobre alternativas sustentáveis ao uso do fogo”, destacou o secretário do Meio Ambiente do Acre, Leonardo Carvalho, no mês de outubro passado.

Atualmente, o Corpo de Bombeiros Militar do Acre (CBMAC) mantém 18 bases operacionais em todo o estado, atuando com mais de 150 profissionais diariamente e 36 viaturas distribuídas estrategicamente para agilizar o combate às ocorrências.

O Governo do Acre também enfatiza iniciativas como a Operação Contenção Verde, lançada em fevereiro passado, que reúne secretarias de meio ambiente, forças policiais, defesa civil, Ibama, ICMBio e outros órgãos em ações contínuas de prevenção e repressão a crimes ambientais. A operação foca especialmente nos municípios mais vulneráveis às queimadas ilegais.

Ainda como ação estratégica, a Operação Fogo Controlado, com investimento de R$ 5,6 milhões, mobiliza uma força-tarefa durante a estação seca para evitar e conter focos de incêndio em áreas sensíveis, envolvendo brigadistas e equipamentos especializados.

Além disso, em parceria com o Corpo de Bombeiros, o governo capacitou 48 brigadistas comunitários que atuam diretamente na prevenção e no combate a incêndios em áreas de conservação, reforçando o engajamento da população rural nas ações de proteção ambiental.

Clima, condutas sociais e ajuste comportamental

Para o professor Willian Flores, também pesquisador da Universidade Federal do Acre e membro da equipe que coordena o Projeto Acre Queimadas, a combinação de fatores climáticos e técnicos com comportamentos sociais alterados após uma temporada crítica de queimadas em 2024 também pode ter contribuído para o cenário de 2025. Contudo, ele evitou fazer uma avaliação mais aprofundada sem análise prévia.

“Acredito que vários fatores influenciaram para esse índice baixo de focos de calor e fumaça. Um deles é a distribuição de chuvas, mas precisaria de uma análise para responder com consistência. Houve também fatores sociais: dado que o ano anterior foi muito crítico, produtores rurais podem ter tido receio em usar o fogo. Por fim, citaria a intervenção do poder público, embora eu não tenha os números do que foi investido pelo governo do Estado em comando e controle”, afirmou.

Cenário do desmatamento e projeções para 2026

Embora as queimadas tenham tido uma queda histórica, a questão do desmatamento e de suas conexões com o uso do fogo permanece em foco. Dados preliminares indicam que o desmatamento no Acre registrou queda no ano, mantendo-se em um patamar baixo em 2025 — mas com números ainda em consolidação, com tendência positiva em relação à redução de práticas de corte seguido por queima.

Segundo o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas do Estado do Acre (PPCDQ-AC), o objetivo é promover uma redução anual de, pelo menos, 10% no desmatamento, com a meta de 50% de redução até 2027. A continuidade da queda de queimadas em 2026 estará, portanto, diretamente relacionada à eficácia dessas políticas, ao clima e ao engajamento de produtores rurais em práticas sustentáveis.

Resultados e lições para o Brasil

O desempenho do Acre se insere em um contexto mais amplo de diminuição dos focos de queimadas no Brasil em 2025, reforçando tendências observadas em dados nacionais e em outros estados da Amazônia e do Pantanal. Políticas integradas de prevenção e combate, monitoramento geoespacial e mobilização social podem se tornar modelos de atuação que estimulem práticas semelhantes em outras regiões do país.

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