Rio Branco, 24 de maio de 2026.

Sem fronteiras 4

Com recursos próprios, protetora independente acolhe mais de 120 gatos e pede ajuda para manter alimentação dos animais

Protetora dedica a vida a cuidar de animais abandonados e precisa de ajuda com ração – Foto: cedida

Em meio à rotina exaustiva, a protetora independente de animais, Francisca Martins, de 51 anos, vive uma realidade que mistura amor, sacrifício e sobrevivência diária. Atualmente, ela acolhe 128 gatos resgatados de situações de abandono, maus-tratos, doença ou risco iminente de morte.

“Faço resgates de animais em situação de rua, abandono, perigo e urgências. Também sou lar temporário de outros animais que pessoas resgatam e não podem ou não querem ficar e me procuram por ser cuidadora desses animais. Cuido dos animais, coloco eles com seu bem estar e saúde reestabelecidos então podem ser adotados”, detalha a protetora.

A maioria dos animais é composta por gatos idosos, muitos com doenças renais, urinárias, deficiência visual ou outros problemas de saúde, o que dificulta e, muitas vezes, impossibilita a adoção.

“A minha maior dificuldade de colocar para adoção é porque eles são gatos idosos, com problemas renais, com problemas de saúde. Essa é a dificuldade para colocar para a adoção, então eles ficam comigo. Não é uma escolha, é uma consequência do abandono”, relata.

Francisca compartilha que, em 2012, teve diagnóstico de depressão e, após lhe falarem que poderia ajudar, decidiu adotar o seu primeiro bichinho. Mas foi em 2018 que os resgates tiveram início.

“Na verdade, eu adotei uma gatinha porque disseram que ajudaria com a minha depressão. Ela era a coisa mais linda, só que três meses depois, um gato de rua matou ela. E aí ficou o nosso gato mais velho, que era encostado dela. Em 2018, encontrei um casal de gatinhos recém-nascidos e levei para casa. Depois, uma outra gata pariu na porta da nossa casa, teve seis gatinhos e não conseguimos doar. Em 2018 eu comecei o resgate”, compartilha.

A protetora acrescenta ainda. “A causa que eu defendo e luto por ela é grande e intensa e só entende quem tem alma sensível com a dor de seres que não podem nos dar nada de material ou valor em troca do cuidado que oferecemos para eles. Se eu ver uma vida desses pequeninos sofrendo ou em risco eu vou ajudar. Os abandonados são em números incontáveis, onde andamos nessa cidade, vemos todo tipo de caso de dor e abandono de animais. Cheguei nessa quantidade de animais por não aguentar ver sofrimento e dor deles. Faço o que ninguém quer fazer”, adiciona.

Apoio e desafios

A protetora mora de aluguel com seu filho, de 26 anos, que ajuda, como pode, a manter a limpeza e ordem do lugar, além de também dar apoio na alimentação e cuidados com os animais. “Ele quase sempre está lá. A causa já não é só minha, passou a ser do meu filho também”, diz.

Porém, Francisca afirma que não é fácil conciliar e dar conta de tudo.

“Meu filho é jovem, nossa casa não tem mais jeito de casa, de um lar. Sobram problemas, contas, animais sem ter recursos para cuidar, faltam mantimentos para nós e para os animais. Então, sabemos que não é o sonho de um jovem de 26 anos cuidar de animais e não ver nada ao seu redor melhorar, pelo contrário, só piora. Dividimos juntos a dor de tentar fazer mais e não conseguimos, dividimos a satisfação de salvar vidas, de ver animais sobreviventes de tragédias, mas também nos deparamos com uma vida pessoal considerada, por muitos, miserável, temos que lidar com o nariz torcido de pessoas que falam que isso é uma causa perdida”, desabafa.

Segundo a protetora, o maior desafio enfrentado atualmente é a alimentação. De acordo com ela, o consumo chega a cerca de 30kg de ração no período de apenas três dias para os gatos adultos, além de ração específica para filhotes, sachês e rações especiais para animais com problemas urinários. A despesa é contínua e crescente.

“A cada 3 dias eles consomem 30kg de ração. Temos também gastos com material de limpeza, se utiliza o equivalente a cerca de 10 casas, além de medicamentos para eles, consultas, castração e vermifugação. Atualmente, só consigo fazer o básico do básico e, ainda assim, esse básico só tem sido possível graças a ajuda  de outras protetoras que também estão cansadas, exaustas na sua vida e rotina com animais”, comenta.

Apesar da enorme responsabilidade, Francisca conta com ajuda fixa de duas pessoas, que doam 25kg de ração uma vez por mês. “Quando aperta, eu peço ajuda em grupos. Não por mim, mas por eles”, afirma.

Francisca também compartilha que toda a renda que consegue vem de trabalhos e diárias que realiza com faxinas e, praticamente, 100% do dinheiro é destinado à alimentação e aos cuidados dos animais. Conforme a protetora, o que a motiva a continuar é o amor que tem pelos animais.

“A motivação é muito amor. Eles me dão força todos os dias para levantar da cama e ir ao meu trabalho, a procurar diárias e levar alimentação para dentro da minha casa. Essa é a motivação que eles me trazem, de eu viver um dia após o outro. Quando as dificuldades vêm, eu primeiro me apego a Deus, depois me apego a eles. Então, é muito amor, muito amor para cuidar deles, porque tem que ter amor, paciência e dedicação. As minhas diárias que eu consigo, todas são para eles, nada é para mim, todas para eles”, declara.

Segundo ela, são nos próprios animais onde encontra a força para continuar e, mesmo exausta diante dos problemas, segue resgatando sempre que possível. “Eles são o motivo de eu me levantar da cama todos os dias. Quando estou mal, eles sentam perto de mim. Parece que entendem. Quando eu olho para eles, eu não vejo animais. Eu vejo vida.”

Além da alimentação, também há gastos constantes com medicamentos, material de limpeza, consultas veterinárias e tratamentos. A protetora comenta que possui, inclusive, dívidas em clínica veterinária devido aos atendimentos emergenciais que não puderam ser adiados. O único suporte que consegue de forma pontual são consultas pelo hospital veterinário da Universidade Federal do Acre (Ufac).

Outro ponto abordado pela protetora se refere ao fato de pessoas a buscarem para entregar animais.

“Infelizmente sim, sou procurada para receber animais, porque a grande maioria que me procura sente dor e desconforto quando vê o sofrimento de um animal, mas não quer comprometer sua renda, sua rotina, sua vida e na grande maioria das vezes buscam protetores como eu para apenas transferir esse problema. Ser uma referência no resgate e cuidados com animais seria muito bom se, junto a esse reconhecimento, viessem recursos financeiros, acolhimento do poder público, clínicas públicas para animais, castração, vacinação e medicamentos”, expõe.

Adoção

O amor é tanto que Francisca conhece todos pelo nome: “pipoca, margarina, nanina são alguns” – Foto: cedida

Um outro detalhe interessante é que Francisca sabe o nome de todos os 128 gatinhos. Pipoca, Margarina, Tomás, Mônica, Lelê, Apolo, Princesa, Joaquim, Nanica, Eduardo, Eduarda, Nana, Dengoso, Margarida, Aida, Antônio e Luiz, são apenas alguns dos nomes dos bichinhos resgatados por ela.

Conforme a protetora, muitos animais já foram entregues para a adoção.

“Eu resgato, reabilito, cuido e posteriormente entrego para adoção. Mas essa adoção não é feita de qualquer jeito, pois eu não tiro esse animal das ruas e do perigo para jogar em um lar que deseja um gato para ser ‘caçador de ratos’, que deixa o gato com fome”, aponta.

Francisca complementa ainda. “Não entrego um gato para um lugar onde a pessoa mal possa se manter. Essa pessoa que adota não só um dos meus gatos, mas que adota qualquer gato ou animal, precisa entender que esse animal passa a ser parte da sua família, que merecem dignidade e respeito. Animais são seres sencientes, que têm sentimentos e emoções como nós os humanos”, acrescenta.

Doações de ração

Diante da situação, a protetora faz um apelo por doações de produtos de limpeza e ração para gatos adultos, filhotes e rações especiais. Qualquer quantidade pode ajudar a manter a alimentação básica dos animais nos próximos dias.

Quem puder contribuir com doações ou ajudar de alguma forma esses animais resgatados, pode doar diretamente para a protetora, por meio do PIX 68981002587 ou pelo telefone de Francisca (68)99230-0553. Toda ajuda é bem-vinda e é fundamental para Francisca continuar salvando as vidas dos animais que dependem exclusivamente da solidariedade.

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