As datas celebradas nesta quinta-feira, 23, e sexta-feira, 24, respectivamente Dia Nacional da Educação de Surdos e Dia da Língua Brasileira de Sinais (Libras) chamam atenção para avanços importantes no reconhecimento da Libras, mas também evidenciam desafios que ainda persistem, especialmente na formação de professores e na garantia de uma educação verdadeiramente bilíngue.
No Acre, apesar de iniciativas e políticas públicas voltadas à inclusão, a realidade ainda exige mudanças estruturais para assegurar o aprendizado de estudantes surdos com qualidade.

Para a escritora e professora da Universidade Federal do Acre (Ufac), com especialização em Educação de Surdos, Libras, Tradução e Interpretação, Ianelle Vital, a data representa muito mais que uma celebração: é um marco de resistência e reconhecimento da identidade surda.
“O 23 de abril é, no fundo, o dia de celebrar a liberdade de um povo. Durante muito tempo, pessoas surdas foram forçadas a se comunicar de formas que não correspondiam à sua realidade, sem poder usar sua própria língua”, explica.
Segundo a professora, a Libras é uma língua completa, com estrutura própria, e deve ser respeitada como língua materna da comunidade surda.

“É o dia de lembrar que a educação só acontece de verdade quando respeita a identidade de quem está aprendendo”, completa.
Vivência na prática
Estudante do curso de Letras Libras na Ufac, Matheus Costa, de 25 anos, é surdo implantado e usuário da Libras. Ele conta que nasceu surdo profundo e que sua trajetória educacional teve avanços, mas também desafios, principalmente no ensino superior.
“Na escola eu estudava com outros surdos, aprendi até o terceiro ano. Na faculdade ficou mais difícil, é diferente do ensino médio, estou aprendendo coisas novas até hoje”, relata.
Matheus destaca também que a Libras é essencial no dia a dia e para a própria construção da identidade.
“Eu sempre uso Libras, isso é muito importante para a comunidade surda”, afirma.
O estudante relata ainda ter enfrentado situações de preconceito, inclusive dentro da universidade.
“Já aconteceu de uma pessoa me chamar de ‘surdo mudo’. Isso não é correto”, diz.
Desafios ainda persistem
Apesar de avanços legais, como a garantia da educação bilíngue, com Libras como primeira língua e o português como segunda, a professora Ianelle Vital avalia que a prática ainda está distante do ideal.
“O maior desafio hoje é a formação de professores preparados, que sejam fluentes em Libras e consigam ensinar conteúdos complexos. Sem isso, a inclusão não acontece de fato”, afirma.
Vital também destaca que a responsabilidade não pode recair apenas sobre intérpretes.
“A inclusão é coletiva. Não depende só do intérprete, mas de toda a estrutura educacional”, pontua.
Realidade no Acre
No estado, há iniciativas como o Centro de Apoio ao Surdo (CAS), da Secretaria de Estado de Educação (SEE) e o Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI), na Ufac, que ajudam a garantir acessibilidade. Ainda assim, segundo a professora, o Acre precisa avançar.
“A inclusão efetiva é uma responsabilidade coletiva, que exige políticas institucionais, adaptações curriculares e o engajamento de todo o corpo docente”, diz.

Para Matheus Costa, um dos caminhos para melhorar a inclusão é o interesse da sociedade em conhecer a realidade das pessoas surdas.
“As pessoas precisam aprender Libras, ter contato com surdos. Isso ajuda a entender melhor”, afirma.
Educação como direito, não adaptação
Para a professora Ianelle Vital, o principal ponto é entender que a educação de surdos não é uma adaptação, mas um direito. É necessário, valorizar a Libras como uma língua com estrutura própria e a diversidade na comunidade surda.
“Nesse sentido, é urgente que as avaliações escritas sejam corrigidas por profissionais aptos a compreender as especificidades do português como segunda língua para surdos”
Como uma das medidas possíveis, a professora destaca a criação de laboratórios equipados para a filmagem e produção desses materiais, contando com o trabalho conjunto entre intérpretes e professores surdos:
“Essa medida não é um puxadinho, mas a promoção da igualdade de direitos; se o aluno ouvinte tem o direito de ser avaliado em sua primeira língua, é legítimo e legal que o aluno surdo também o seja”, finaliza.








