Rio Branco, 1 de maio de 2026.

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Opinião – Marina Silva: a relevância global que o Acre não pode ignorar

Ao longo dos anos, acreana se tornou uma referência para o mundo nas questões ambientais – Foto acervo pessoal

A saída da ministra Marina Silva do comando do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima marca o fim de um ciclo de reconstrução da política ambiental brasileira e, para o Acre, representa também o encerramento de mais um capítulo da trajetória de uma de suas figuras públicas mais emblemáticas e controversas.

Marina deixou o cargo nesta semana, após pouco mais de três anos à frente da pasta no atual governo, em um movimento que faz parte da reorganização política visando as eleições de 2026. Em seu lugar, assume o então secretário-executivo João Paulo Capobianco, considerado um dos principais formuladores das políticas ambientais recentes.

Mais do que uma troca administrativa, a saída ocorre após uma gestão marcada por resultados concretos. Ao longo do período iniciado em 2023, o Brasil registrou queda significativa no desmatamento da Amazônia, com reduções que chegaram a cerca de 50% na comparação com anos anteriores, além da retomada de políticas de fiscalização e reconstrução institucional dos órgãos ambientais.

Para o Acre, a saída de Marina Silva carrega um significado que vai além da política nacional. Nascida em seringal e formada politicamente na floresta, construiu sua trajetória a partir da realidade amazônica e ajudou a projetar o estado no cenário internacional como símbolo da luta ambiental, sendo uma das grandes amigas e companheiras de Chico Mendes.

Sua passagem pelo ministério, tanto no início dos anos 2000 quanto agora, sempre esteve associada a momentos de inflexão nas políticas ambientais. Desta vez, o foco foi a reconstrução de estruturas fragilizadas, com reforço de equipes, aumento de orçamento e retomada de ações de comando e controle.

“Reconstruímos a capacidade do Estado ambiental brasileiro”, afirmou a ministra em seu discurso de despedida, ao destacar o fortalecimento de órgãos como Ibama e ICMBio e a ampliação das ações de fiscalização.

Marina Silva deixa o governo federal para disputar as eleições em 2026 – Foto acervo pessoal

Apesar dos avanços, a gestão também enfrentou desafios políticos relevantes. Projetos de infraestrutura, pressões econômicas e debates sobre exploração de recursos naturais colocaram a agenda ambiental em constante tensão dentro do próprio governo.

Ainda assim, Marina deixa o cargo com um balanço considerado positivo por especialistas, sobretudo pela capacidade de reorganizar políticas públicas e recolocar o Brasil como protagonista nas discussões climáticas globais.

Sob o olhar de quem vive na Amazônia e, em especial, no Acre, a saída de Marina Silva não é apenas uma mudança ministerial. É o afastamento de uma liderança que traduz, em nível nacional e internacional, a experiência de quem nasceu e cresceu na floresta.

Sua trajetória sempre esteve ligada à ideia de que desenvolvimento e preservação não são opostos, mas caminhos que precisam caminhar juntos — um conceito que dialoga diretamente com a realidade acreana, marcada pelo extrativismo, por reservas ambientais e populações tradicionais.

No entanto, a figura de Marina Silva não é unanimidade em seu estado natal. Ao longo dos anos, especialmente com o avanço de pautas ligadas à produção agropecuária e ao uso econômico da terra, a ministra passou a enfrentar resistência de setores locais, que veem em sua agenda ambiental entraves ao desenvolvimento.

Essa rejeição, embora significativa em determinados segmentos, revela também uma tensão histórica da própria Amazônia: o equilíbrio entre conservação e produção. Marina, por sua trajetória e posicionamento, acabou se tornando um dos principais símbolos desse debate.

Ainda assim, a divergência política e ideológica não apaga a dimensão de sua relevância. Independentemente das críticas, sua atuação foi decisiva para recolocar o Brasil no centro das discussões ambientais globais e para estruturar políticas que impactam diretamente o futuro da floresta — e, por consequência, do próprio Acre.

Para os acreanos, queiram ou não, ela segue sendo um símbolo de origem, resistência e projeção. Sua presença no governo federal sempre representou, de alguma forma, a voz da floresta nos espaços de poder. E é justamente essa ausência, agora, que passa a ser observada com atenção.

Raimari Cardoso é jornalista e colaborador eventual do Portal Acre. 

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