
Mesmo com a queda de 28% no número total de conflitos no campo no Brasil em 2025, a Amazônia Legal continua sendo o principal foco da violência agrária no país. É o que mostram os dados do relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, lançado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) na última segunda-feira (27), na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília/DF. O levantamento registrou 1.593 ocorrências no ano passado, contra 2.207 em 2024.
O dado mais preocupante está nos casos de violência contra a pessoa. Dos 26 assassinatos registrados em conflitos no campo em todo o país, 16 ocorreram em estados da Amazônia Legal — o equivalente a mais de 60% do total nacional. Pará e Rondônia lideraram o ranking de mortes, com sete assassinatos cada. O Amazonas aparece em seguida, com dois registros.
O cenário reforça a permanência da Amazônia como principal foco das disputas por terra no país, impulsionadas por grilagem, desmatamento ilegal, avanço da fronteira agropecuária e pressão sobre territórios indígenas, comunidades tradicionais e pequenos produtores rurais.
Nesse contexto, o Acre chama atenção por não aparecer entre os estados com registros de assassinatos nem nos indicadores mais graves de violência contra a pessoa no levantamento da CPT. O dado, no entanto, está longe de representar tranquilidade no campo acreano.
Integrante da coordenação colegiada regional da CPT no Acre, Darlene Braga afirma que a ausência do estado nos índices mais extremos não é motivo de comemoração.
“A gente não fica feliz, porque uma morte, um assassinato, seja onde for, não é um sentimento de felicidade. Mas a gente não está entre os estados que têm maior índice de violência. Nesse ranking a gente não está dentro. Porém, nós temos conflitos sérios e graves no estado”, afirmou.
Segundo ela, muitos conflitos no Acre acabam ocorrendo de forma menos visível, sem chegar ao enfrentamento direto, mas ainda assim refletem disputas territoriais profundas.
“O Estado do Acre tem uma característica peculiar de conflitos porque algumas comunidades são mais pacatas e ainda não estão na fase de ir para o enfrentamento. O papel da CPT é fazer essa mediação e um processo de formação e articulação para que essas comunidades busquem seus direitos”, explicou.
Darlene também destacou que o problema se estende para áreas acompanhadas pela regional acreana da CPT no sul do Amazonas, onde episódios recentes acenderam o alerta.
“Boca do Acre e o sul de Lábrea são áreas muito conflitivas. No sábado passado tivemos um massacre. São situações que já denunciamos aos órgãos responsáveis, mas existe uma omissão para resolver os problemas relacionados à posse da terra”, disse.

A coordenadora também apontou preocupação com a região da Amacro — área que reúne municípios do Acre, Amazonas e Rondônia — considerada uma nova fronteira de expansão agropecuária na Amazônia.
“A Amacro é preocupante. O índice de mortes e de violência nessa região é forte. Mesmo o Acre não aparecendo no ranking, esses números preocupam.”
Para Darlene Braga, a persistência da violência no campo está diretamente ligada à falta de regularização fundiária e à ausência de uma política agrária efetiva no país.
“O Brasil precisa fazer reforma agrária. Precisa regularizar os territórios das comunidades que vivem há décadas nessas áreas. Enquanto não fizer reforma agrária, não vai ter paz no campo.”
Embora o Acre tenha ficado fora dos casos mais extremos registrados em 2025, o alerta da CPT é de que os conflitos seguem presentes — muitas vezes de forma silenciosa — e exigem ações do poder público para evitar o agravamento da violência na região.








