Rio Branco, 30 de maio de 2026.

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Apesar da queda no desmatamento, Acre pode ter temporada de queimadas estendida até novembro

Acre tem apresentado evolução na reduçaõ do desmatamento: Foto Alexandre Noronha/Secom

Dois importantes estudos divulgados nesta semana — o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD Abril), do Imazon, levantamento mensal, e o Relatório Anual do Desmatamento (RAD 2025), do MapBiomas, mostram que o Acre tem apresentado evolução considerável na redução do desmatamento.

Os dados do SAD, divulgados na última terça-feira (26), demonstram que o Acre reduziu em 32% o desmatamento acumulado entre agosto de 2025 e abril de 2026. O levantamento apontou ainda queda de 60% nos alertas registrados apenas no mês de abril em comparação com o mesmo período do ano passado.

Já o RAD 2025, divulgado na quarta-feira (28), mostra que a área desmatada no estado caiu 43,6% em relação ao ano anterior, colocando o Acre entre as cinco unidades da federação com melhor desempenho ambiental do país no período.

Mas apesar do desempenho considerado positivo tanto no cenário mensal quanto no consolidado anual, especialistas avaliam que os números precisam ser observados com cautela, principalmente diante das condições climáticas previstas para os próximos meses na Amazônia.

Uma situação a ser considerada é que mesmo com a redução no acumulado, os alertas mensais registrados no Acre apresentaram crescimento gradual no início de 2026 — passando de 1 km² em janeiro para 3 km² em março, antes de recuarem para 2 km² em abril. Para pesquisadores que acompanham o comportamento ambiental da região, esse cenário pode indicar uma pressão mais tardia sobre a floresta neste ano, tanto quanto ao desmatamento quanto às queimadas.

A coordenadora do projeto Acre Queimadas e pesquisadora do Campus Floresta da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Cruzeiro do Sul, Sonaira Silva, avalia que o comportamento dos dados ainda está sendo influenciado pelo prolongamento do período chuvoso no estado.

“Devido às chuvas desse início de ano, os desmatamentos ainda estão devagar. Eu acredito que esse ano teremos bastante queimadas porque no ano passado não queimaram muito devido as chuvas”, afirmou.

Segundo a pesquisadora, o chamado verão amazônico deve começar mais tarde em 2026 e se estender além do período tradicionalmente mais crítico para incêndios florestais no Acre: “O verão vai iniciar atrasado, mas deve se estender até novembro”, disse.

Historicamente, agosto e setembro concentram os maiores registros de queimadas no estado. A possibilidade de prolongamento do período seco preocupa porque pode manter a floresta sob pressão por mais tempo.

Sonaira explica que o comportamento climático da Amazônia depende de uma combinação de fatores, especialmente da interação entre o fenômeno El Niño e o aquecimento das águas do Oceano Atlântico.

“O El Niño, de forma geral, atinge pouco o Acre. Mas afeta com força o Amazonas, Pará e Mato Grosso. Se ele vier junto com o aquecimento do Oceano Atlântico, como foi em 2024, vai chegar com força no Acre também”, explicou.

Ela destaca ainda que o fenômeno climático costuma atravessar dois anos consecutivos, o que mantém preocupação também para 2027: “O El Niño ocorre de um ano para outro. Se não for muito forte nesse verão, existe preocupação estendida para 2027”, observou.

Outro fator apontado pela pesquisadora é o impacto indireto do calendário político sobre o avanço do desmatamento e das queimadas: “Um agravante para 2026 são as eleições. Sempre é um momento crítico”, afirmou.

Apesar dos sinais de atenção, o Acre segue distante dos estados que lideram a devastação na Amazônia Legal. Em abril, Mato Grosso concentrou 40% de todo o desmatamento detectado pelo SAD, seguido por Amazonas (24%) e Roraima (22%). O Acre respondeu por apenas 1% do total registrado no período.

Sonaira pondera, no entanto, que a relação entre clima e queimadas não é automática. Ela lembra que o Acre registrou recorde de áreas queimadas em 2022 mesmo sem ocorrência forte de El Niño: “A equação não é simples. São muitos fatores para analisarmos”, disse.

A pesquisadora defende acompanhamento permanente dos dados ao longo dos próximos meses, especialmente com a aproximação do período seco, quando historicamente aumenta a pressão sobre a floresta em toda a Amazônia.

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