
A cerca de 22 quilômetros da zona urbana de Xapuri, saindo do bairro Sibéria, chega-se a uma localidade já bastante conhecida pela sua relação direta com o socioambientalismo acreano e pelo simbolismo que possui quando se trata do legado de Chico Mendes. É lá que vive há 46 anos o primo do líder sindical e um dos principais herdeiros de sua militância, o seringueiro, ativista político e ambientalista Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão.
Aos 81 anos de idade, Raimundão segue em atividade na defesa do modo tradicional de viver na floresta fazendo firme contraponto às opiniões de que essa opção não é mais viável. Uma das vozes mais respeitadas da luta seringueira no Acre, ele segue defendendo aquilo em que sempre acreditou, que é a possibilidade de viver da floresta sem destruí-la.
Nos últimos anos, iniciativas surgidas na colocação Rio Branco, no coração da Resex Chico Mendes, começaram a chamar atenção dentro e fora do Acre. Uma delas foi o Ateliê da Floresta, projeto que ganhou destaque nacional ao transformar resíduos de árvores caídas em peças de decoração e móveis produzidos sem derrubada de mata. Agora, o empreendedorismo comunitário avança para um novo eixo sustentado sobre três pilares: hospedagem ecológica, vivência comunitária e ecoturismo.

Quem ajuda a conduzir essa nova etapa é Ronaira Barroso Mendes, filha de Raimundão. Outros dois irmãos, Rogério e Rian, além de Dona Maria Barroso, a matriarca, estão juntos na empreitada ao lado de toda a comunidade do entorno do Rio Branco. Mas é Ronaira quem nos explica como as diferentes iniciativas se conectam dentro da proposta construída pela família.
“A EcoTur é a marca principal que estamos desenvolvendo como agência de turismo de base comunitária, voltada para experiências dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes. Ela nasce com esse propósito de fortalecer o turismo comunitário, valorizar os saberes da floresta e proporcionar experiências autênticas aos visitantes”, explica.

Segundo Ronaira, o projeto se organiza em diferentes frentes complementares. O Raízes da Floresta é o espaço de hospedagem criado para receber visitantes no interior da mata, enquanto a Vivência Comunitária na Reserva Extrativista Chico Mendes integra os roteiros turísticos desenvolvidos em parceria com a agência Destino Acre.
“Existe uma conexão entre os três, mas cada um ocupa um lugar diferente dentro da proposta”, resume.
Mais do que um empreendimento turístico, o projeto nasceu da própria rotina da família. Durante anos, visitantes de diferentes partes do Brasil e do mundo chegavam até a colocação Rio Branco interessados em conhecer a floresta, ouvir histórias da luta seringueira e compreender o modo de vida tradicional amazônico. Sem estrutura formal, eram recebidos dentro da própria casa da família.
“O Raízes da Floresta nasceu muito antes da construção dos chalés. Ele nasceu dentro da nossa casa, da forma como a nossa família sempre acolheu as pessoas que chegavam à Reserva Extrativista Chico Mendes querendo conhecer a floresta, ouvir histórias, compreender o modo de vida seringueiro e vivenciar de perto a realidade dos povos da floresta”, conta Ronaira.
Ela lembra que, quase sempre, quem chegava ao local vinha motivado pelo desejo de conhecer mais profundamente a história da resistência amazônica.
“Quem chegava até nós quase sempre vinha movido pelo amor à Amazônia, pela curiosidade em conhecer a história da luta dos seringueiros e, principalmente, pelo desejo de ouvir Raimundão falar sobre Chico Mendes, Wilson Pinheiro, Ivair e tantos outros companheiros que dedicaram suas vidas à defesa da floresta e dos povos que nela vivem”, relata.

Com o passar dos anos, surgiu o desejo de criar um espaço próprio para receber os visitantes com mais conforto, sem perder a essência comunitária e afetiva que sempre marcou a experiência.
“Não queríamos construir apenas um lugar de hospedagem, mas um espaço que carregasse identidade, que deixasse memórias e produzisse um sentimento de pertencimento nas pessoas que nos visitam”, afirma Ronaira.
O sonho começou a ganhar forma quando Rogério Mendes, irmão de Ronaira, passou a participar de editais voltados ao fortalecimento do turismo de base comunitária e de iniciativas ligadas aos saberes tradicionais da floresta. Um dos projetos aprovados permitiu transformar a ideia em realidade.
Hoje, o Raízes da Floresta conta com dois chalés instalados em meio à mata, cercados por seringueiras e árvores nativas. Batizados de Castanheira e Seringueira, os espaços foram concebidos para oferecer uma experiência de imersão na floresta, mas sem desconectar os visitantes da história do território e de seus moradores.
“Os espaços foram pensados para proporcionar descanso, silêncio e reconexão. Quem chega ali encontra muito mais do que hospedagem. Encontra um território vivo, cheio de histórias, memórias e espiritualidade. É um chão ancestral, marcado pela luta dos povos da floresta, pela resistência seringueira e pela memória daqueles que defenderam esse território com a própria vida”, define Ronaira.
A experiência proposta inclui trilhas conduzidas por moradores locais, visitas a uma samaúma centenária considerada a “rainha da floresta”, vivências ligadas ao corte tradicional da seringa e momentos de convivência em espaços coletivos construídos pela própria comunidade.
Um dos pontos mais simbólicos é o deck instalado próximo a uma vertente que secou durante a estiagem severa de 2024. Após a perfuração de um poço semiartesiano e a revitalização da área, o local se transformou em espaço de encontro, banho e descanso para moradores e visitantes.
“A seca nos marcou profundamente. Hoje, aquele espaço virou um lugar de convivência, paz e reconexão com a natureza”, diz a filha de Raimundão.
Mas talvez seja na cozinha de Dona Maria Barroso que a experiência ganhe uma de suas dimensões mais afetivas. Reconhecida na comunidade pelos saberes culinários transmitidos entre gerações, ela conduz parte importante do acolhimento oferecido aos visitantes. Em meio a receitas tradicionais preparadas no fogão e histórias compartilhadas à mesa, a culinária se transforma em elemento central da vivência:
“Tudo que a gente prepara aqui tem um pedacinho da nossa história e das coisas que aprendemos vivendo na floresta. A nossa comida é simples, mas é feita com carinho, com produtos da nossa terra e com respeito pela mata. Quando as pessoas comem aqui, eu quero que elas sintam esse acolhimento, como se estivessem dentro da casa da gente”, afirma Dona Maria.
Enquanto isso, Raimundão continua ocupando um lugar central na experiência oferecida pela comunidade. Reconhecido pelos moradores como mestre dos saberes orais, ele segue compartilhando memórias da luta seringueira e reflexões sobre o presente e o futuro da Amazônia. Ver as iniciativas sendo tocadas pelos filhos e comunidade representa para ele que as lutas travadas valeram a pena.

“É uma sensação de alegria e de esperança. Ver os filhos e os amigos abraçando essa causa mostra que tudo o que a gente fez lá atrás não foi em vão. É possível viver na floresta sem destruí-la. O que adianta é viver com dignidade, e isso a floresta oferece. Só a ignorância e a ganância defendem essa ideia de destruir para construir”, afirma o seringueiro.
Quem investe em uma visita à colocação Rio Branco percebe que o legado de Chico Mendes permanece vivo não apenas na memória dos que resistiram ao lado dele, mas também nas novas formas encontradas pela comunidade para continuar defendendo a floresta. Entre histórias, trilhas, culinária, hospedagem e saberes tradicionais, a família de Raimundão transforma resistência em experiência viva — e mostra que a Amazônia também pode construir o futuro a partir de suas próprias raízes.
Quem tiver interesse em conhecer o espaço, pode obter mais informações pelo perfil da Eco Tur nas redes sociais.











