
Há mais de um século, o mês de janeiro transforma Xapuri em um território de fé, reencontros e memória coletiva. Na igreja de São Sebastião, considerada uma das mais belas do Acre e um dos principais cartões postais da cidade, o vermelho das roupas dos devotos acompanha celebrações, promessas, orações e reforça uma tradição que atravessa gerações.
Mas, para além de uma das muitas manifestações religiosas amazônicas, o Novenário de São Sebastião se consolidou ao longo do tempo como um dos maiores símbolos culturais do povo xapuriense — e exatamente por conta disso agora caminha para receber o reconhecimento oficial como Patrimônio Histórico Imaterial do Acre.
O processo vem sendo conduzido há um ano e meio pelo professor João Pacheco, coordenador do curso de História da Universidade Federal do Acre (Ufac), junto a uma equipe formada pelos acadêmicos Sérgio Emore e Sara Cordeiro. O trabalho reúne entrevistas, jornais antigos, registros audiovisuais, fotografias e relatos da comunidade para a elaboração do dossiê que será apresentado ao Conselho Estadual de Patrimônio Histórico e Cultural (CEPHC).

Para o pesquisador, que é paranaense de Maringá, onde já trabalhou com um projeto parecido, o reconhecimento oficial apenas formaliza algo que já existe na prática há 124 anos, que é o sentimento de pertencimento da população em relação à festa. Ele conta que a investigação começou a partir da percepção de que a celebração de São Sebastião não era apenas uma tradição religiosa, mas um dos maiores patrimônios culturais vivos do Acre.
“Quando eu cheguei na universidade, comecei a pesquisar quais eram as festas mais antigas e significativas do estado. E percebi que a festa de Xapuri era a mais antiga do Acre. Então o primeiro passo foi justamente entender se ela possuía os elementos necessários para ser reconhecida como patrimônio imaterial”, explica o professor.
Uma tradição que nasceu junto com a história de Xapuri

A origem da festa praticamente se confunde com a própria formação histórica de Xapuri. O novenário começou no início do século XX, no mesmo período em que a região vivia os acontecimentos da Revolução Acreana. Enquanto os conflitos pela incorporação do território ao Brasil redesenhavam a história amazônica, a devoção a São Sebastião começava a criar raízes entre seringueiros, comerciantes e famílias que ajudariam a construir a identidade da cidade.
Desde então, a celebração se transformou em um marco anual da vida xapuriense. Ao longo das décadas, a festa atravessou mudanças políticas, econômicas e sociais, mantendo ritos que permanecem praticamente intactos até hoje: as novenas, a procissão, as promessas, as missas lotadas, as quermesses e os tradicionais marreteiros.
“A festa permanece viva justamente porque ela é passada de geração em geração. Você vai ao novenário e encontra avô, pai e filho participando juntos. Essa transmissão entre gerações é uma das características mais importantes para que ela seja reconhecida como patrimônio imaterial”, afirma o pesquisador.
Pesquisa busca transformar memória em patrimônio

Entre as fontes pesquisadas pela equipe da UFAC está um documentário produzido pelo antigo Centro de Referência da Cultura, possivelmente na década de 1970, que mostra seringueiros desembarcando na cidade durante o período da festa. O material reforça o papel histórico do novenário como espaço de encontro social, circulação econômica e fortalecimento dos laços comunitários.
A pesquisa também identificou registros da celebração em jornais das décadas de 1940 e 1950 encontrados no acervo do Museu da Borracha. Segundo João Pacheco, a continuidade dos ritos ao longo de mais de 120 anos é um dos elementos centrais para o reconhecimento da manifestação como patrimônio cultural.
Mas a importância do novenário vai além da dimensão religiosa. Para o pesquisador, a festa ocupa hoje um papel central na identidade cultural de Xapuri.
“São Sebastião deixa de ser apenas uma figura da fé católica e passa a ocupar um lugar simbólico na construção da identidade cultural da cidade”, observa.
Durante os dias de celebração, Xapuri vive uma dinâmica própria. Ex-moradores retornam à cidade, famílias se reencontram, o comércio se fortalece, barracas e ambulantes ocupam as ruas e manifestações culturais dividem espaço com as cerimônias religiosas. Para o pesquisador, o sagrado e o popular coexistem de maneira inseparável.
“Se tivesse só a parte religiosa talvez não tivesse tanta gente. E se fosse só o comércio também não teria. Uma coisa ajuda a manter a outra”, resume.
Outro ponto considerado fundamental no processo é a participação da própria comunidade. Além das entrevistas realizadas com moradores, devotos e membros da paróquia, um abaixo-assinado foi organizado pelos participantes da festa em apoio ao reconhecimento.
“Não dá para saber se é patrimônio sem ouvir as pessoas. O patrimônio nasce justamente desse sentimento de pertencimento da comunidade”, destaca o professor.
Preservar a memória para o futuro

A expectativa da equipe é concluir o dossiê até agosto deste ano e encaminhá-lo à Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM). Paralelamente, os pesquisadores também pretendem produzir um documentário sobre o novenário utilizando imagens históricas e registros feitos durante as últimas edições da festa.
Mais do que garantir um reconhecimento oficial, o trabalho busca preservar uma memória que continua viva nas ruas, nas famílias e na devoção popular de Xapuri.
“Não adianta a gente fazer um estudo e deixar só na academia. Esse material precisa voltar para a comunidade”, conclui João Pacheco.








