
Completado um mês do colapso da Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, o município ainda convive com as consequências de um dos maiores acidentes de infraestrutura já registrados no Acre. Além dos transtornos provocados pela interrupção da principal ligação sobre o Rio Iaco, uma das quatro vítimas do acidente permanece internada, enquanto as investigações avançam para esclarecer as causas do colapso da estrutura.
O desabamento ocorreu na noite de 5 de junho, um dia depois de a ponte ter sido interditada por apresentar sinais de comprometimento estrutural. A obra havia sido inaugurada em dezembro de 2023, custou mais de R$ 36 milhões aos cofres públicos e tinha 232 metros de extensão. Segundo o Corpo de Bombeiros, aproximadamente 60% da parte central da ponte, equivalente a 139 metros, veio abaixo.
Entre os quatro feridos, o caso mais grave continua sendo o do juiz aposentado Edinaldo Muniz, de 54 anos. Conforme familiares informaram ao portal G1 Acre, em reportagem publicada neste domingo (5), ele segue internado em um hospital de São Paulo, mas seu quadro é considerado estável e sem risco de morte. Um novo boletim médico deve ser divulgado em breve.
O irmão de Edinaldo, o advogado Edinei Muniz, de 51 anos, recebeu alta hospitalar ainda no dia 9 de junho.
Outro sobrevivente, o autônomo Weverton Murieta, de 34 anos, foi o primeiro a deixar o hospital, no dia seguinte ao acidente. Embora tenha retornado posteriormente a Rio Branco devido a dores na cabeça e nas costas, não precisou ser internado novamente.

Já Antônio Morais Lima Filho, de 36 anos, recebeu alta em 10 de junho após passar por cirurgia ortopédica e pela retirada de um dreno torácico.
Destroços continuam no rio
Passados 30 dias do desabamento, os destroços da ponte permanecem no leito do Rio Iaco e ainda não existe previsão para a retirada da estrutura. Segundo o Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária (Deracre), qualquer intervenção depende da conclusão dos trabalhos da Polícia Civil, que realiza a investigação criminal sobre o caso.
O laudo pericial deve ser concluído no próximo dia 12 de julho. A investigação é conduzida por três delegados da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), que buscam identificar as causas do desmoronamento. Além da investigação policial, o Ministério Público do Estado do Acre também instaurou procedimento para acompanhar a apuração dos fatos.
Sem a ponte, a rotina da população mudou completamente. A travessia entre os dois lados da cidade passou a ser feita por pequenas embarcações, conhecidas como catraias, utilizadas diariamente por moradores, estudantes e trabalhadores.
Medidas
Após o acidente, a Justiça do Acre determinou o bloqueio de R$ 36 milhões em bens da Construtora Cidade Ltda., empresa responsável pela execução da obra. O valor corresponde ao custo da construção da ponte. A medida integra as ações ajuizadas pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e pelo Deracre para garantir eventual ressarcimento aos cofres públicos e assegurar que a empresa arque com os prejuízos decorrentes do desabamento.
Também foram impostas multas diárias que, somadas, podem chegar a R$ 200 mil em caso de descumprimento das determinações judiciais. Outra decisão judicial determinou a preservação de toda a documentação técnica relacionada à obra, incluindo projetos, medições, relatórios de fiscalização e demais registros que possam contribuir para esclarecer as causas do acidente.
Empresa ainda não apresentou plano definitivo
Mesmo após determinação da Justiça para adoção de medidas emergenciais, a Construtora Cidade ainda não apresentou o plano definitivo de assistência às vítimas e às famílias afetadas. Segundo a Procuradoria-Geral do Estado, a empresa informou que ainda realizava levantamentos técnicos e solicitou mais prazo para apresentar a documentação.
Na última terça-feira (30), representantes de diversos órgãos públicos participaram de uma visita técnica ao local do desabamento, entre eles especialistas da Universidade Federal do Acre (Ufac). Após a inspeção, a presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-AC), Dulcinéa Benício, determinou a adoção urgente de uma série de medidas preventivas.
Entre elas estão o monitoramento contínuo dos pilares, fundações, tabuleiro, aterros e margens do rio; ampliação da área isolada diante do risco de novos desmoronamentos e processos erosivos; além do reforço da sinalização de perigo, com placas alertando sobre risco de colapso, interdição da área e risco de morte.
As investigações também procuram esclarecer se os problemas estruturais identificados dias antes do acidente poderiam ter evitado o desabamento. Segundo informações já divulgadas anteriormente, cerca de uma semana antes do colapso foram detectadas movimentações do solo e rachaduras em uma área superior a 16 mil metros quadrados nas proximidades da ponte.
Com base nesses levantamentos, a Construtora Cidade encaminhou ao Deracre recomendação para que a estrutura fosse interditada. Após o acidente, a empresa afirmou, em nota, que o desabamento teria sido provocado pelo fenômeno conhecido como “terras caídas”, caracterizado pelo desmoronamento natural das margens dos rios amazônicos em razão de processos erosivos.
A conclusão da perícia da Polícia Civil, prevista para os próximos dias, deverá indicar se essa explicação encontra respaldo técnico ou se outros fatores contribuíram para o colapso da ponte.







