
As altas temperaturas que estão afetando o Acre desde o fim de agosto evocam uma pergunta que vai além de um episódio isolado de calor: o Acre está ficando mais quente? Para o pesquisador Rodrigo da Gama de Santana, doutorando em Biodiversidade e Biotecnologia pela Rede Bionorte/Ufac, os dados analisados nas últimas décadas indicam que sim.
Em uma conversa com o Portal Acre sobre o assunto, ele diz que a elevação das temperaturas no estado faz parte de um processo mais amplo de aquecimento da Amazônia e não pode ser explicada apenas pela atuação de fenômenos climáticos como o El Niño, mesmo que este tenha participação importante no contexto.
“Sim, o Acre tem apresentado um aumento significativo em suas temperaturas nas últimas décadas, e esse fenômeno não é isolado. Pesquisas já desenvolvidas e publicadas por nossa equipe indicam que toda a Amazônia Legal Brasileira vem passando por um processo de aquecimento acentuado”, afirma.
Rodrigo estuda o tema desde o Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais, também pela Universidade Federal do Acre, quando apresentou a dissertação Análise da Evolução de Temperaturas e suas Possíveis Implicações Ecossistêmicas no Leste do Acre. O trabalho foi orientado pelo renomado pesquisador Irving Foster Brown e examinado pelos também cientistas Sonaira Souza da Silva, Antonio William de Flores de Melo e Lisandro Juno Soares Vieira.
Para o doutorado, Rodrigo está no processo de finalização do artigo científico proveniente da dissertação, que aborda as tendências de aquecimento no sudoeste da Amazônia (Rio Branco, Cruzeiro do Sul, no Acre; Porto Velho, em Rondônia; e Lábrea, no Amazonas).
Na análise mais recente conduzida por sua equipe, com foco em Rio Branco entre 1980 e 2024, Gama identificou aumento de 0,3°C na temperatura média, 0,4°C na temperatura máxima e 0,5°C na temperatura mínima. Para o pesquisador, o dado mais importante é que o aquecimento não aparece apenas nos picos de calor.
“Esses valores evidenciam que tanto as manhãs quanto as tardes estão, de fato, mais quentes, reforçando a tendência de aquecimento contínuo e consistente na região”, explica.
O El Niño não explica tudo
É justamente nesse ponto que, segundo Gama, é preciso separar o aquecimento estrutural do clima dos efeitos de fenômenos naturais que podem intensificá-lo. O pesquisador explica que o El Niño se origina no Pacífico Equatorial e não aquece diretamente o Acre. O fenômeno altera padrões de circulação atmosférica e pode reduzir as chuvas na Amazônia. Com menos água disponível no solo e na vegetação, aumenta a concentração de calor próximo à superfície.
“Esse aquecimento não afeta diretamente o Acre, mas altera os padrões de vento e circulação atmosférica em todo o planeta. O resultado para a Amazônia é uma mudança no regime de chuvas, que se tornam abaixo da média histórica”, afirma.
O resultado é uma combinação particularmente preocupante para o estado. Com menos chuva, o período seco se alonga, e a falta de umidade no solo e na vegetação faz com que o calor se concentre na superfície, elevando as temperaturas. O calor e a seca tornam a vegetação extremamente inflamável, aumentando o risco de incêndios florestais.
Por isso, Gama define o El Niño não como a origem do atual processo de aquecimento, mas como um amplificador de uma tendência que já existe.
“De um lado, temos um aquecimento de base já consolidado (…) que aponta tendências de elevação térmica contínua nas últimas décadas. De outro, somam-se os episódios intensificados do El Niño, que atuam como verdadeiros amplificadores desse processo. Quando esse fenômeno ocorre sobre uma região já aquecida estruturalmente, a situação se torna extremamente crítica”, alerta.
Desmatamento amplia o problema
Além do aquecimento global e da variabilidade climática, o pesquisador chama atenção para um fator regional que é a perda de cobertura florestal. Na avaliação de Gama, o desmatamento reduz a evapotranspiração e a formação de nuvens, contribuindo para aumentar o calor na superfície e criando um ciclo de retroalimentação entre degradação, redução de umidade e temperaturas mais elevadas.
“Estudos anteriores e nossas pesquisas atuais já indicam que estamos em uma mudança permanente no estado do Acre, o Acre já desmatou 17% de seu território, perigosamente próximo do limite crítico de 20% . Além desse ponto, a floresta perde a capacidade de se regenerar, acelerando o processo de “savanização” . Isso criaria um ciclo vicioso: menos floresta → menos chuvas → mais calor → mais degradação”, explana.
O problema não termina no termômetro
Para Gama, a preocupação maior não está apenas em quantos graus o termômetro poderá alcançar, mas nos efeitos acumulados de calor, seca, queimadas e escassez de água. Para ele, não se trata mais de lidar apenas com o calor, mas de interromper esse ciclo vicioso antes que ele se torne incontrolável.
“A poluição do ar, agravada pelas queimadas durante as secas severas, já é um fator crítico”, afirma, citando também o estresse térmico sobre a população, árvores, animais e toda a biodiversidade.
Na agricultura e na pecuária, a redução da umidade do solo e a falta de água podem comprometer pastagens, aumentar o estresse dos animais e dificultar o trabalho sob exposição prolongada ao sol. Diante desse cenário, o pesquisador defende que a resposta precisa combinar redução do desmatamento, prevenção às queimadas, proteção das populações vulneráveis e monitoramento científico.
“O verdadeiro pesadelo é a combinação que transforma o Acre em uma bomba-relógio climática, onde a pergunta não é se vai esquentar mais, mas se o estado conseguirá escapar de um colapso ambiental e social antes que seja tarde demais”, conclui Rodrigo Gama.








