Quando o ódio vira virtude e a vingança vira oração

Não é mais só sobre demitir ou boicotar. Nos últimos dias, o que está sendo disseminado nos grupos, nos comentários, nos áudios encaminhados, já ultrapassou a política e entrou no território do ódio puro.
É o desejo de que o outro passe fome. Que perca tudo. Que suma. Que morra. “Tem que se f… mesmo.” “Tinha que perder o emprego.” “Bem feito, tem que passar necessidade.” “Não tenho dó.” “Seu lugar é na vala”.
Quando o voto vira motivo para desejar a morte do outro, já não estamos falando de direita ou esquerda. Estamos falando do mais antigo mecanismo que antecede toda barbárie: transformar divergência em ódio, ódio em vingança e vingança em dever moral.
Tudo começa com uma palavra bonita que limpa a consciência: Deus, pátria, família, liberdade, ordem. Com essa fantasia, a pessoa se autoriza.
O outro deixa de ser pessoa e vira rótulo e quando o outro vira rótulo, a empatia desliga e fica fácil punir. Fácil expor numa lista. Fácil demitir. Fácil desejar que morra.
E ninguém faz isso sozinho. Precisa de uma “autorização” que vem de cima e de uma plateia que aplaude embaixo.
Alguém com um cargo, com um microfone, com milhares de seguidores diz “façam isso”, e a rede social transforma a maldade em espetáculo, em prova de lealdade, em curtida.
É assim que gente comum, que se diz de bem, que reza, que fala de família, passa a cultivar ódio no café da manhã, destilar vingança no almoço e desejar a morte do outro no jantar, tudo acreditando que está fazendo o bem. Que está fazendo justiça.
Mas não é justiça. É decadência moral disfarçada de justiça.
É a soma de pequenas maldades cotidianas, de listas de comércios, de demissões exemplares, de “não dê nem água”, de “não ajude”, que constrói a base social de toda ditadura.
O fascismo e o nazismo não viveram só de líderes. Viveram de pessoas comuns que aceitaram trocar o incômodo de conviver com o diferente pela confortável sensação de pertencer a um grupo puro e poder humilhar, esmagar e eliminar quem está do outro lado.
Quando alguém escolhe dizer publicamente “aqui não perseguimos trabalhador por voto, aqui não negamos água, aqui não desejamos o mal”, ele rompe esse ciclo.
Ele recusa a palavra de ordem, recusa a lista, recusa a plateia do ódio e recusa a vingança.
Ele lembra o óbvio que estamos esquecendo: democracia não é concordar com todo mundo. Democracia é suportar o direito do outro de discordar de você sem que isso custe o pão dele, o emprego dele, a dignidade dele ou a vida dele.
Quem espalha ódio, vingança e desejo de morte por causa de voto não está defendendo o Brasil. Está destruindo a própria alma e chamando isso de patriotismo.
Então escolha agora: você quer ter razão ou você quer ter futuro? Você quer pertencer a uma horda que deseja a morte ou a um país que ainda sabe dividir o pão?
Porque a história não perdoa quem desejou a morte do próximo. Ela registra. E todas as gerações hão de ler.








