Há quem acompanhe a política como quem defende um time. O próprio lado precisa vencer, mesmo quando joga contra tudo aquilo que se dizia acreditar.
Nesse tipo de militância, a corrupção provoca indignação até que o acusado seja o candidato escolhido. A partir daí, surgem as justificativas, as comparações e o esforço para transformar o indefensável em algo aceitável.
O compromisso com o país vai cedendo espaço à obrigação de proteger uma preferência. Já não se pergunta se determinada conduta prejudica a população. Pergunta-se como explicá-la sem comprometer a imagem de quem a praticou.
É nesse ponto que a convicção se torna uma espécie de cegueira. Os fatos podem ser apresentados, as contradições podem ser expostas, as consequências podem estar diante dos olhos. Ainda assim, a resposta permanece: “Essa é a minha opinião”. Como se a liberdade de opinar desse a cada pessoa o poder de escolher quais acontecimentos podem ser considerados verdadeiros.
Uma opinião pode expressar valores, prioridades e interpretações diferentes da realidade. Mas precisa admitir o confronto com aquilo que se consegue demonstrar. Quando nenhuma evidência é capaz de provocar sequer uma dúvida, cabe perguntar o que está sendo defendido com tanto empenho.
A missão passa a ser salvar o candidato. Se há uma denúncia, procura-se imediatamente uma acusação contra o adversário. Se uma promessa é descumprida, encontra-se uma desculpa. Se um direito é atacado, minimiza-se o prejuízo. A régua muda conforme o nome de quem está sendo julgado.
A corrupção, nesse ambiente, deixa de ser um problema a combater e vira um instrumento de disputa. Serve para condenar o outro e desaparece do discurso quando alcança os aliados. O que ontem parecia intolerável hoje recebe compreensão. E quem cobra coerência corre o risco de ser tratado como traidor.
Há também uma dificuldade humana em reconhecer o próprio engano. Depois de defender alguém publicamente, discutir com amigos e compartilhar tantas certezas, rever uma posição pode parecer uma derrota pessoal. Para evitar esse desconforto, acumula-se uma justificativa sobre a outra. O preço de preservar a própria imagem passa a ser fechar os olhos para o que precisa ser enfrentado.
A militância tem um papel importante na vida democrática. Organiza reivindicações, mobiliza pessoas e dá força a causas coletivas. Por isso mesmo, precisa preservar a capacidade de cobrar aqueles que ajuda a eleger. Quando o apoio exige silêncio diante do erro, o cidadão entrega justamente a autonomia de que necessita para participar da política.
Às vésperas do segundo turno, vale perguntar o que cada um está disposto a aceitar para ver seu candidato vencer. Quais erros decidiu ignorar? Quais princípios passou a relativizar? Que atitudes condenaria com indignação se fossem praticadas pelo adversário? Essas respostas dizem muito sobre a responsabilidade com que estamos fazendo nossas escolhas.
O voto é individual, mas suas consequências alcançam também quem escolheu diferente. Alcançam quem depende de serviços públicos, quem precisa ter seus direitos respeitados e quem já enfrenta dificuldades demais para suportar decisões tomadas por orgulho, ressentimento ou devoção a uma liderança. Uma eleição termina na apuração. Seus efeitos permanecem na vida das pessoas.
Antes de votar, é preciso ter coragem de submeter o próprio candidato às mesmas exigências feitas ao outro. A honestidade que se cobra, os direitos que se defendem e os abusos que se condenam precisam valer também quando colocam nossas preferências em questão. Se os princípios mudam conforme o lado, o que estamos levando às urnas?
Que cada eleitor entre na cabine com a consciência que nenhuma campanha deveria conseguir silenciar. O candidato eleito receberá poder para tomar decisões que afetam a todos. Nosso compromisso com a verdade, a justiça e a democracia precisa continuar maior do que o compromisso com sua vitória. Porque, depois que o palanque for desmontado, será a realidade que teremos de enfrentar.








