Rio Branco, 7 de novembro de 2026.

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Gente que fez do microfone uma missão e do rádio um elo de comunicação e amizade com os acreanos – Por Raimari Cardoso

Raimari Cardoso é radialista em Xapuri – Foto acervo pessoal

Minha relação com o rádio começou muito antes de eu imaginar que um dia estaria diante de um microfone. Começou ainda na infância, em casa, observando meu pai, um homem seringueiro, que depois de um dia de trabalho na mata tinha um hábito quase sagrado: ao chegar, ligava o velho rádio Americano de parede, adquirido às custas de muita borracha produzida no defumador,  para ouvir as vozes que vinham de longe.

Naquele aparelho mágico, que parecia encurtar as distâncias de um mundo tão grande, ecoavam as vozes de Edelson Moura e Márcia Ferreira, na Rádio Nacional da Amazônia. Para meu pai e tantos outros homens e mulheres que viviam nos seringais, o rádio era muito mais do que um meio de comunicação. Era companhia, informação, entretenimento e uma espécie de janela para o mundo que existia além da floresta.

Talvez eu ainda não compreendesse, naquela época, a dimensão do que representava aquele pequeno ritual em momentos certos do dia. Mas aquelas vozes, que chegavam à nossa casa pelas ondas do rádio, foram despertando em mim uma ligação que o tempo só fez crescer.

Aos 15 anos, tive a oportunidade de experimentar o outro lado dessa história. Comecei minha trajetória na histórica Rádio Educadora 6 de Agosto, de Xapuri, onde descobri que estar diante de um microfone era muito mais do que falar. Era assumir uma responsabilidade, aprender a comunicar, respeitar quem estava do outro lado e entender que uma voz no rádio pode alcançar lugares e pessoas que talvez nunca conheçamos.

Mais tarde, o próprio rádio me conduziu ao jornalismo, atividade que exerço com orgulho, dentro de minhas limitações. Mas nunca deixei de reconhecer minhas origens. Antes disso, fui alguém que aprendeu a gostar da comunicação ouvindo rádio. E essa experiência me permite olhar com carinho e profundo respeito para tantos profissionais que fizeram e continuam fazendo a história do rádio acreano.

Muitos deles, como eu mesmo, nunca passaram por uma faculdade de Comunicação. Aprenderam na prática, nos estúdios, nas transmissões, nas coberturas de acontecimentos e na convivência diária com os ouvintes. Desenvolveram uma maneira própria de comunicar, construíram credibilidade e conquistaram um espaço que não se mede por diplomas, mas pela capacidade de estabelecer vínculos com as pessoas.

E como foram importantes! Houve quem levasse as primeiras notícias da manhã, quem narrasse os gols que fizeram cidades inteiras vibrarem, quem acompanhasse os acontecimentos políticos, quem denunciasse problemas das comunidades, quem anunciasse a chegada de alguém, transmitisse uma mensagem ou simplesmente tocasse uma música capaz de melhorar o dia de um ouvinte.

O rádio acreano foi construído por muitas vozes e também por muitas mãos. Por trás de cada programa, havia locutores, repórteres, operadores de áudio e transmissores, sonoplastas, produtores, técnicos e tantos outros profissionais que, muitas vezes longe dos holofotes, ajudaram a manter essa história no ar.

Não seria justo tentar resumir essa trajetória em alguns nomes, por isso abro mão de citações. Há muita gente que merece reconhecimento, inclusive profissionais que já não estão entre nós e que deixaram sua contribuição registrada na memória de milhares de ouvintes. Por isso, esta é uma homenagem coletiva, a todos que fizeram do microfone um instrumento de trabalho, mas também de dedicação e compromisso.

O rádio mudou. Vieram a televisão, a internet, as redes sociais, os podcasts e tantas outras formas de comunicação. Os aparelhos também mudaram, mas a essência permanece. O rádio continua chegando a lugares onde outras formas de comunicação nem sempre conseguem chegar. Continua fazendo companhia a quem trabalha, a quem dirige, a quem mora longe, a quem está sozinho e a quem simplesmente gosta de ouvir uma boa voz contando o que acontece.

Talvez muitos daqueles profissionais nunca tenham recebido grandes homenagens ou reconhecimento à altura de sua contribuição. Mas existe algo que nenhum prêmio consegue substituir, que é a lembrança de quem, por tantos anos, encontrou na voz de um radialista uma companhia, uma informação, um sorriso ou um motivo para acreditar que não estava sozinho.

Quando penso nisso, lembro do meu pai chegando da mata e ligando aquele rádio de parede. Lembro das vozes que atravessavam a floresta e chegavam até nós. E penso que, de alguma maneira, toda a minha história com a comunicação começou ali.

Por isso, minha homenagem não é apenas de um jornalista que reconhece a importância de seus colegas de profissão. É também de um menino que descobriu o mundo ouvindo rádio, de um jovem que teve a oportunidade de falar ao microfone aos 15 anos e de alguém que nunca esqueceu o valor de uma voz capaz de fazer companhia a tantas vidas.

A todos esses profissionais, de ontem e de hoje, meu respeito, minha gratidão e meu reconhecimento. Vocês não apenas fizeram rádio. Fizeram parte da vida de muita gente. E isso é uma história que jamais sairá do ar.

Raimari Cardoso é radialista em Xapuri. É servidor do governo do Acre, no cargo de Gestor de Políticas Públicas, atualmente coordenador da Rádio Aldeia FM no município e colaborador do Portal Acre.

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