
Trinta e sete anos após a morte de Chico Mendes, o legado do líder seringueiro segue sendo disputado não apenas no campo político, mas também no terreno da memória e da educação. Para Maria Lourdes Ribeiro Pereira, a Lurdinha, professora e diretora escolar formada dentro e fora da Reserva Extrativista Chico Mendes, esse legado precisa ser compreendido para além da exaltação simbólica — e urgentemente resgatado no cotidiano das comunidades e das escolas.
Aos 33 anos, Lurdinha representa uma geração que colheu frutos diretos da luta encampada nos anos 1980, sobretudo no acesso à educação formal. Filha de morador da Resex e de artesã da floresta, neta de Antônia Soares Ribeiro — seringueira que esteve na linha de frente dos empates liderados por Chico Mendes —, ela carrega na própria trajetória a síntese entre memória, território e formação acadêmica.
Licenciada em Química e Pedagogia, Lurdinha exerce atualmente o segundo mandato como diretora da escola Madre Gabriela Nardi, que atende 287 alunos do 1º ao 9º ano. Para ela, o enfraquecimento das comunidades rurais e o distanciamento da história de Chico Mendes dos currículos escolares representam riscos concretos à continuidade dos ideais coletivos que sustentaram a criação da reserva.
Em entrevista ao Portal Acre, Lurdinha fala sobre sua formação como agente comunitária florestal, a influência direta da luta de Chico Mendes na ampliação do acesso à educação, o papel das escolas na preservação da memória histórica e os desafios atuais enfrentados pelas comunidades extrativistas. Reconhecendo a importância do líder seringueiro, ela alerta: o legado só se mantém vivo com organização comunitária, educação crítica e compromisso coletivo.
A seguir, a entrevista completa.
ENTREVISTA — Maria Lourdes Ribeiro Pereira (Lurdinha)
Portal Acre — Como foi ser aluna do programa de agentes comunitários florestais do Centro dos Trabalhadores da Amazônia (CTA)?
Lurdinha — Assim… para mim foi um momento muito importante. Na época, nós estávamos dando início à nossa formação e, para nós que morávamos dentro da reserva, era um momento de nos sentirmos valorizados. Porque a gente sabe que quem vem de dentro da reserva, de dentro do seringal, tinha uma visão muito restrita ao próprio mundo. Quando eu cheguei na zona urbana para estudar, ainda sentia um pouco de preconceito social. Às vezes as pessoas imaginavam que a gente era inferior, que tinha menos conhecimento. E os cursos e estudos que fiz pelo projeto do CTA me deram um embasamento para saber de onde eu vim e melhorar meu conhecimento valorizando as minhas origens.
Portal Acre — Naquele momento, vocês já tinham uma visão clara do efeito da luta do Chico Mendes para que os extrativistas tivessem acesso à educação formal?

Lurdinha — Eu sempre tive essa visão. Eu era uma jovem com muita vontade de estudar, vendo a luta principalmente da minha avó, Antônia Soares Ribeiro, que participou dos empates e hoje não está mais conosco. Ela passou isso para minha mãe. Eu sempre fui muito observadora, gostava de escutar as histórias, e tinha essa luta deles muito clara como algo de grande importância para nós, da juventude. Sempre soube que nós, jovens, estávamos colhendo os frutos de toda aquela luta.
Portal Acre — Hoje, olhando para sua trajetória profissional e pessoal, o que aquela formação significou?
Lurdinha — Foi de grande importância, porque nós que éramos da zona rural — e eu ainda me considero da zona rural, da reserva, pois tenho toda minha família lá — tivemos ali um embasamento inicial de estudo. Quando vim para a zona urbana, eu já tinha clareza do que queria ser e de como queria contribuir com a sociedade. Trabalhei alguns anos na minha própria comunidade, na escola União, por sete anos, e sempre soube que ali poderia contribuir. Sempre trabalhei com meus alunos a importância da história da nossa comunidade e da luta que existiu. Já desenvolvi projetos sobre isso e, inclusive, meu TCC foi relacionado a temas da própria reserva.
Portal Acre — Você vê hoje o legado do Chico Mendes sendo trabalhado nas escolas?
Lurdinha — Hoje eu não vejo mais. Vejo como algo que está ficando bem escasso, principalmente na zona rural, dentro das comunidades da reserva. Acredito que deveria ser trabalhado, não no sentido de idolatria — porque sou crítica em relação a isso —, mas como alguém que realmente fez parte da nossa história. Precisamos saber que foi através daquela luta que ele travou, indo para a frente, que hoje nós conseguimos muitas coisas.
Portal Acre — O que o extrativista, o morador da reserva, ainda aproveita da luta que Chico Mendes encampou?
Lurdinha — Foi através da luta dele que muitas coisas aconteceram e que as pessoas da zona rural tiveram acesso a melhorias. As comunidades começaram a existir também a partir dessa luta, buscando melhores condições de sustento e de vida para os filhos. Hoje há melhorias em acesso, transporte, conhecimento, inclusive por meio da internet. Mas vejo as comunidades muito enfraquecidas. Quando morei na minha comunidade até os 16 anos, presenciei pessoas se reunindo para tudo, buscando melhorias coletivas. Hoje muitos usufruem disso, mas não percebem que vivem melhor graças a uma luta anterior. Falta esse reconhecimento.
Portal Acre — O que você acha da construção da Ponte da Sibéria? Ela representa benefício ou ameaça à Reserva Chico Mendes?
Lurdinha — Eu gosto de ver pelo lado positivo. A ponte traz grandes benefícios para a comunidade da Sibéria e toda a zona rural deste lado do rio, incluindo a Resex: acesso, escoamento de produtos, possibilidade de turismo. Minha mãe, por exemplo, faz artesanato da floresta, e a ponte facilita que as pessoas conheçam esse trabalho. Quanto às preocupações ambientais, a ponte também favorece a fiscalização. Tudo tem lado positivo e negativo, mas acredito que, com atuação das autoridades e respeito às leis, ela traz mais benefícios do que prejuízos.
Portal Acre — Que mensagem você dirige aos jovens de hoje, filhos e netos de quem protagonizou a luta liderada por Chico Mendes?
Lurdinha — Eu diria aos jovens que conhecer a história é fundamental para saber para onde a gente quer ir. O Chico Mendes não faz parte apenas do passado, ele faz parte das conquistas que hoje muitos usufruem dentro da reserva e fora dela. Mas essa história não deve ser tratada como idolatria. Ela precisa ser compreendida, estudada e vivida no dia a dia, principalmente por meio da educação e da organização comunitária. Se a juventude quer dar continuidade a esse legado, precisa fortalecer as comunidades, participar das associações, valorizar a escola e entender que a luta não terminou. As conquistas vieram, mas só permanecem se houver união, consciência e compromisso coletivo.








