Rio Branco, 18 de abril de 2026.

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Prova de Medicina ou teste de resistência? Quando um vestibular se transformou numa versão universitária de Jogos Vorazes

No próximo domingo, acontece segundo dia de provas do vestibular de Medicina da UFAC – Foto: cedida

Por Lane Valle

O primeiro vestibular próprio de Medicina da Ufac entrou para a história. Não exatamente pelos conteúdos inovadores da prova, mas pela inesperada inclusão de uma nova etapa avaliativa: a corrida desenfreada em campus aberto, com obstáculos emocionais, portões fechados e informações inexistentes.

Logo na chegada, os candidatos perceberam que não bastava saber biologia, história do Acre e redação. Era preciso também ter preparo físico, noção de orientação espacial, tolerância ao estresse extremo e, preferencialmente, experiência prévia em situações caóticas. Afinal, localizar o próprio bloco dentro do gigantesco campus virou uma espécie de prova eliminatória não oficial.

Sem sinalização adequada, com informações tão escassas quanto a organização do evento, o vestibular se transformou numa versão universitária de Jogos Vorazes, com jovens desesperados correndo de um lado para o outro, guiados por boatos, palpites e gritos de “é pra lá!” vindos de outros igualmente perdidos. Tudo isso enquanto o relógio avançava implacável — porque nada eleva mais o desempenho cognitivo do que a iminência de perder a prova.

Isso porque antes mesmo de responder a primeira questão, os candidatos já estavam testando resistência cardiovascular, controle da ansiedade e capacidade de sobreviver ao caos, habilidades importantes para a medicina, é verdade, mas talvez um pouco precoces para um domingo de prova.

O cenário parecia simples, ao menos foi o que todos esperavam. Bastava chegar no horário previsto, documentos no bolso, canetas extras e… PAH!  Apenas paz e tranquilidade para fazer uma prova. Mas a execução, no entanto, lembrou mais uma mistura de maratona improvisada, ganhava quem sabia a matéria… e achava o bloco. Só faltou o canhão para anunciar os eliminados.

Como se não bastasse o estresse natural de um vestibular de Medicina, os portões fechados fizeram sua participação especial, garantindo aquele toque final de pânico coletivo. Houve quem chegasse à sala suando mais do que se tivesse feito um exame do TAF (Teste de Aptidão Física), com o coração em taquicardia e a mente já em estado de falência, cansado, ofegante e questionando se ainda estava apto a fazer a prova ou se deveria procurar atendimento médico… ironicamente.

Mas, calma! Domingo que vem tem de novo. A expectativa agora é de que o vestibular seja apenas um vestibular. Sem prova de atletismo, sem labirinto universitário e sem testes surpresa de controle emocional em massa. Após o caos, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou a abertura dos portões antes do horário previsto, justamente para evitar o colapso do trânsito e, principalmente, dos candidatos.

Que fique aqui registrado minha total solidariedade aos candidatos que sobreviveram ao primeiro dia do vestibular do curso de Medicina da Ufac, especialmente minha primogênita, Maria Clara, que na minha humilde opinião, todos eles mereciam, no mínimo, o CRM honorário de resistência.

Que nesta próxima edição, o maior desafio seja escolher a alternativa correta, e não sobreviver à logística. Porque se a intenção era testar quem aguenta pressão, o recado foi dado com louvor. Agora, talvez seja hora de lembrar que vestibular é seleção de conhecimento — não um ensaio geral do caos.

Lane Valle é fonoaudióloga, jornalista e colaboradora do Portal Acre.

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