Rio Branco, 2 de maio de 2026.

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Cheias sucessivas do Rio Acre expõem novo patamar de risco hidrológico no estado, alerta especialista

Professor da UFAC, Genivaldo explica padrão mais instável e perigoso de cheias – Foto: acervo pessoal

Com Rio Branco enfrentando o terceiro transbordamento do Rio Acre em pouco mais de um mês, o Acre vive um cenário que extrapola o comportamento historicamente esperado para o período chuvoso. Embora os meses de dezembro a março correspondam ao intervalo mais crítico do calendário hidrológico amazônico, a frequência, a intensidade e a concentração temporal dos eventos recentes indicam que o estado passa a conviver com um padrão mais instável e perigoso de cheias.

Para compreender o que está por trás desse comportamento, o Portal Acre conversou com o doutor em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos José Genivaldo do Vale Moreira, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) e um dos autores do artigo Chuvas intensas no estado do Acre, Amazônia ocidental, que analisa a variabilidade da precipitação extrema e seus impactos hidrológicos na Amazônia, com foco específico no estado do Acre, região particularmente sensível a eventos extremos influenciados tanto por fatores naturais quanto por atividades humanas.

Segundo o pesquisador, os transbordamentos observados recentemente não podem ser tratados como episódios isolados ou meramente fortuitos. Eles se inserem, em parte, na lógica sazonal do clima amazônico, mas revelam alterações importantes no funcionamento do sistema hidrológico regional, com implicações diretas para o planejamento urbano, a gestão de riscos e a adaptação às mudanças climáticas.

Sazonalidade e intensificação dos extremos

José Genivaldo ressalta que as cheias fazem parte do regime natural da região durante o chamado Inverno Amazônico, período de maiores volumes de chuva e elevação das vazões dos rios. No entanto, esse padrão vem sendo intensificado por fatores climáticos adicionais, especialmente pela atuação recente do fenômeno La Niña, que elevou a umidade e a frequência de sistemas convectivos na Amazônia Ocidental.

De acordo com o pesquisador, a persistência das chuvas, associada a solos já saturados e a intervalos curtos entre eventos chuvosos, produziu um efeito cumulativo que impediu a normalização dos níveis do Rio Acre, favorecendo transbordamentos sucessivos em um curto espaço de tempo.

Mudança de padrão e ampliação do risco

Mais do que a ocorrência das cheias, o cientista aponta como sinal de alerta a alteração no padrão de recorrência e intensidade dos eventos. “Observa-se que estão se repetindo com maior frequência e apresentando maior intensidade, reduzindo o tempo de resposta do sistema hidrológico e ampliando os impactos associados”, explica.

Esse comportamento indica que, embora o Inverno Amazônico continue sendo um fenômeno esperado, seus efeitos vêm sendo potencializados por mudanças no regime hidrológico regional, possivelmente relacionadas às mudanças climáticas e às transformações no uso e ocupação do solo. Nesse contexto, cheias recorrentes deixam de ser exceção e passam a compor um novo panorama de risco hidrológico no estado.

“Esse cenário reforça a necessidade de abandonar a lógica de resposta emergencial e avançar para políticas de adaptação permanente, incorporando a incerteza climática e hidrológica como elemento central do planejamento urbano, da gestão de riscos e da infraestrutura no Acre”, reforça.

Uso do solo agrava impactos, mas não explica as cheias

População de Rio Branco enfrenta terceiro enchente em pouco mais de um mês – Foto: Everton Monteiro

José Genivaldo diferencia as causas das cheias dos fatores que ampliam seus danos. Segundo ele, os transbordamentos estão principalmente associados a condicionantes climáticos e hidrológicos de grande escala. Ainda assim, o modelo de ocupação urbana tem papel decisivo na amplificação dos prejuízos.

Em cidades como Rio Branco e Xapuri, a ocupação de várzeas, o assoreamento e intervenções nos cursos d’água reduzem a capacidade natural de amortecimento das cheias. “O rio pode até atingir cotas semelhantes às do passado, mas os danos hoje são maiores porque a exposição e a vulnerabilidade aumentaram”, resume.

Projeções indicam maior variabilidade hidrológica

Análises de modelos hidrológicos e projeções climáticas apontam para um cenário de maior variabilidade, com períodos chuvosos mais concentrados e eventos intensos mais frequentes. No Acre, a sucessão de chuvas intensas mantém o solo saturado e impede a recessão adequada dos rios, fazendo com que novos episódios de chuva provoquem elevações rápidas do nível da água.

Segundo o pesquisador, esse conjunto de evidências indica “um novo patamar de risco hidrológico, no qual cheias rápidas, recorrentes e mais intensas tendem a ocorrer com maior probabilidade”.

Da emergência à prevenção permanente

Diante desse cenário, a adaptação exige mais do que respostas emergenciais. Para os municípios do Alto Acre, José Genivaldo destaca a eficácia de medidas não estruturais, como mapeamento de risco atualizado, sistemas de alerta, protocolos de resposta, restrições à ocupação de várzeas, fiscalização, educação para redução de riscos e manutenção contínua da infraestrutura urbana.

No longo prazo, ele defende a integração entre ciência, gestão pública e saber tradicional, valorizando o conhecimento acumulado por ribeirinhos e seringueiros. “Eles acumulam conhecimento sobre sinais de cheia, dinâmica de igarapés, pontos de estrangulamento e rotas seguras”, diz.

O pesquisador conclui com um alerta que sintetiza o desafio central da adaptação climática na Amazônia combinada com a promoção de justiça social: “pois no fim, o desastre não é só a cheia: é a cheia atingir quem está mais exposto e com menos capacidade de resposta”.

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