
Tem um ditado popular — ou melhor, uma daquelas pérolas musicais da sabedoria brasileira que diz: “quando o mel é bom, a abelha sempre volta.” Mas não se engane, não é qualquer mel, nem qualquer época. Esse mel específico só começa a exalar perfume a cada quatro anos, mais ou menos ali entre agosto e outubro. Coincidência? Claro que não.
De repente, bairros que estavam esquecidos no mapa, aqueles que nem o GPS reconhecia passam a receber visitas ilustres. Ruas esburacadas viram passarela de sapato engraxado. O candidato, antes uma figura quase mitológica, surge sorridente, apertando sua mão com entusiasmo olímpico, perguntando da família, do cachorro, do papagaio… parece até que vocês cresceram juntos.
Isso porque o “mel” — no caso, o seu voto, está em alta temporada.
É impressionante a capacidade de reaparecimento dessas “abelhas políticas”. Durante anos, silêncio absoluto. Mas basta o cheiro do voto no ar que elas ressurgem, zumbindo promessas em tons suaves: “agora vai”, “dessa vez é diferente”, “estamos olhando por vocês”.
E o mais fascinante está na memória seletiva. Não deles, nossa. Porque, apesar de tudo, sempre existe alguém disposto a acreditar que aquela visita inesperada é sinal de mudança real. Talvez seja. Talvez o mel tenha melhorado. Ou talvez a abelha só esteja com fome de novo.
Entre um aperto de mão e outro, surgem soluções mágicas para problemas antigos. O posto de saúde abandonado vira prioridade máxima. A escola sem estrutura ganha promessas de reforma urgente.
O ciclo é quase poético, se não fosse tão previsível. As abelhas vêm, coletam o que precisam e, depois… somem. O mel, que antes parecia tão valioso, perde a doçura. E o bairro volta ao seu estado habitual: invisível, silencioso, esperando a próxima safra de promessas.
Mas talvez, querido leito, a grande reflexão não esteja nas abelhas, e sim no mel. Porque quem só aparece na época da colheita nunca se importou, de fato, com a plantação.
Lane Valle é fonoaudióloga, jornalista e colaboradora do Portal Acre.








