Rio Branco, 29 de abril de 2026.

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Match aos 40+: entre filtros, traumas e o risco de encontrar um ex

Por Lane Valle

Depois dos 40 — não que seja o meu caso, antes que comecem os boatos, especialmente do meu editor-chefe — faço aqui um adendo importante: sigo a tendência do “como me identifico”. Portanto, continuo plena, belíssima e levemente cansada… dos meus 29 anos. Esclarecido esse detalhe absolutamente relevante, voltemos ao tema.

Depois dos 40, a gente baixa aplicativo de namoro com a mesma expectativa de quem abre a geladeira de madrugada, não é esperança, é teimosia. Você sabe que não tem nada muito promissor ali… mas vai assim mesmo, porque, vai que surge um milagre entre o pote de margarina e a água gelada.

A diferença é que, em vez de um pedaço de bolo meio ressecado, você encontra o “Carlos, 52, aventureiro, ama viajar”, que na verdade foi uma vez a Porto Seguro em 2007 e nunca mais saiu do bairro.

Confesso: resisti o quanto pude — com dignidade, inclusive. Mas, dias desses, depois de muita insistência de uma amiga, também jornalista (o que por si só já explica muita coisa), dessas que querem ver o circo pegar fogo, mas com embasamento e carinho — cedi. Baixei um aplicativo de relacionamento.

Até porque, sejamos honestos, eu estou há anos bloqueada no Tinder. Motivo? Um alecrim dourado, desses iluminados pela própria convicção, decidiu me denunciar por perfil fake. Olha… se eu sou fake, imagina o roteirista responsável por mim.

Criar o perfil já é, por si só, um acontecimento. Você passa mais de 40 anos lapidando uma personalidade complexa — cheia de camadas, traumas bem administrados e boletos em dia pra, no fim, condensar tudo em três fotos estratégicas e uma bio que precisa equilibrar “sou interessante” com “não sou completamente surtada”. Spoiler: não dá. Ou você parece entediante ou parece que vai mandar textão às três da manhã.

Aí começam os matches

Depois dos 40, a gente jura que não tem mais paciência pra joguinho. Acredita nisso com uma fé quase comovente… por aproximadamente dois dias. Até aparecer o clássico espécime que manda um “Oi, tudo bem?” e some por 48 horas. Meu querido, nessa fase da vida ou você responde ou você foi internado — não existe mais esse conceito de “tô de boas”.

Tem também o clássico “recém-separado”, uma categoria à parte. Ele garante que está prontíssimo pra um novo amor, aberto, resolvido, evoluído…mas passa 70% da conversa falando da ex — com detalhes, cronologia e, se você bobear, até trilha sonora. E aí, no auge da incoerência emocional, solta o inevitável: “vamos devagar, ver no que dá”. Nessa hora, a gente não sabe se inclina pra um beijo ou se indica um bom terapeuta.

E o primeiro encontro… ah, o primeiro encontro depois dos 40 deveria vir com kit sobrevivência: um antiácido, paciência em cápsulas e um plano de fuga minimamente digno. Porque pode acontecer de tudo — e geralmente acontece.

Você chega e descobre que a pessoa não tem absolutamente nada a ver com as fotos. É o famoso “filtro de 2009”, aquele que promete juventude e entrega ficção científica. Ou então até parece com as fotos, mas vem acompanhado de um combo nada promocional: opiniões questionáveis, histórias longas demais e um nível de intimidade que claramente não foi autorizado pelo seu departamento emocional.

E existe aquele momento delicado, quase um rito de passagem — em que, nos primeiros dez minutos, você já sabe: não vai rolar. Não tem química, não tem interesse, não tem nem curiosidade. Mas ainda tem um pedido inteiro pra chegar na mesa, e você ali, presa entre a educação e a vontade de fugir pela porta do banheiro.

Depois dos 40, a gente não quer mais emoção. A gente quer alguém que responda mensagem, combine horário sem drama, respeite o silêncio e, se possível, tenha a pressão arterial minimamente sob controle.

Mas, ironicamente, é justamente aí que a vida resolve entregar os encontros mais caóticos possíveis. Parece que o universo pensa: “Agora que você quer paz? Toma esse date com plot twist”.

E no fim, entre um match duvidoso e outro, a gente segue. Rindo, reclamando, mandando áudio gigante pras amigas e acumulando histórias que, no mínimo, rendem bons textos.

Porque se não der em amor… pelo menos vira conteúdo.

Lane Valle é fonoaudióloga, jornalista e colaboradora do Portal Acre.

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