Rio Branco, 19 de abril de 2026.

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Dia dos Povos Originários: autonomia, identidade e combate a estereótipos; educação indígena ganha centralidade no Acre

Com produção de Maria Mariana Mota

No Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo, 19, discutir educação indígena no Acre é também falar de permanência cultural, enfrentamento ao racismo, acesso a oportunidades e ocupação de espaços ainda marcados pela desigualdade. Mais do que garantir presença nas salas de aula, o assunto envolve reconhecer saberes tradicionais, respeitar identidades e construir uma formação que dialogue com as realidades dos povos originários dentro e fora dos territórios.

Xiú durante participação em evento nacional – Foto acervo pessoal

A trajetória da empreendedora e líder índigena, Gemina Brandão Borges, conhecida em seu idioma como Xiú Shanenawa, ajuda a dimensionar esse processo. Nascida em Feijó, ela conta que viveu desde cedo entre aldeia e cidade, acompanhando a atuação da mãe no movimento indígena e construindo uma caminhada que passou pela educação, pela saúde indígena e, mais tarde, pela busca de formação superior na capital. Ao chegar a Rio Branco, porém, encontrou um cenário duro, marcado por preconceito e falta de oportunidades.

“Eu achava que não iria ser tão difícil assim como eu imaginava. Muito racismo estrutural, muito preconceito e até mesmo as pessoas acharem que a gente é incapaz até de limpar um chão”, relata.

Mesmo diante das dificuldades, Gemina seguiu estudando. Fez curso técnico em Recursos Humanos no Ifac e depois ingressou no bacharelado em Administração, formação que concluiu neste ano. Para ela, a educação foi decisiva na mudança de rumo da própria história.

“A educação abre portas, e isso eu não tenho dúvidas. O conhecimento mudou e tem mudado a minha vida”, afirma.

Hoje, além de atuar como coordenadora-geral de uma organização de mulheres indígenas que abrange o Acre, sul do Amazonas e noroeste de Rondônia, ela também é bolsista da Organização das Nações Unidas (ONU) na área de direitos humanos e deve embarcar para a Suíça em junho, onde fará formação voltada às questões políticas indígenas.

Educação como transformação

Reconhecimento do Sebrae como microempreendora do ano passado – Foto acervo pessoal

A experiência de Gemina também se conecta à criação do “Fadas em Ação”, iniciativa surgida da própria vivência dela na cidade e da dificuldade de inserção no mercado de trabalho. O projeto reúne mulheres indígenas e atua na área do trabalho doméstico, oferecendo serviços como faxina, diária, cuidado de idosos e outros atendimentos específicos, além de incentivar a qualificação profissional.

Segundo Xiú, a proposta nasceu para gerar renda, fortalecer a autonomia e abrir caminhos para outras mulheres que deixam suas comunidades em busca de estudo, trabalho ou melhores condições de vida para os filhos. Ao falar da própria caminhada, Gemina destaca que a educação não impacta apenas o indivíduo, mas reverbera sobre a coletividade.

“Ser mulher já é um desafio, mas ser mulher indígena é muito mais desafiador”, diz.

O desafio de romper estereótipos

Professor de língua inglesa do Instituto Federal do Acre (Ifac) em Cruzeiro do Sul, Clécio Ferreira Nunes, que em sua língua originária se apresenta como Muru Inu Bake, chama atenção para outro ponto central da discussão: a forma como os povos indígenas ainda são tratados no ambiente escolar.

Clécio destaca a importância da educação combater estereótidos dos povos originários – Foto acervo pessoal

Integrante do povo Huni Kuin, ele afirma que a educação tem papel decisivo na valorização das identidades, línguas e culturas indígenas, mas ainda enfrenta invisibilização, falta de materiais e pouco interesse institucional em tratar o tema de maneira séria e contínua.

“Hoje a gente consegue ter uma visibilidade maior das causas indígenas e com isso a gente consegue ter mais materiais, principalmente para trabalhar com os alunos essa parte da reflexão e não continuar trazendo os estereótipos”, afirma.

Para o professor, o maior desafio ainda está em fazer com que docentes não indígenas tenham interesse em estudar, compreender e trabalhar essas pautas de forma responsável, sem reforçar imagens distorcidas e reducionistas sobre os povos originários.

Clécio defende que a discussão não deve ficar restrita a disciplinas específicas nem depender apenas de datas comemorativas, mas além disso, literaturas indígenas, narrativas orais, histórias dos povos e conhecimentos ancestrais podem dialogar com diferentes áreas do conhecimento, da geografia à ciência, da arte à linguagem.

“Não é porque eu sou professor de língua inglesa que estou afastado das questões indígenas. Pelo contrário”, pontua.

Falta de formação e de materiais

Na avaliação do professor, ainda falta uma ponte mais sólida entre os conhecimentos científicos e os saberes indígenas. Ele lembra que o Acre reúne mais de 16 povos indígenas e, mesmo assim, muitos estudantes seguem tendo pouco contato com a diversidade real desses povos.

Capacitação em terra indígena que, antes de tudo, a cultura dos povos originários – Foto acervo pessoal

“Falta essa interconexão, essa relação entre as instituições ocidentais, os conhecimentos científicos e os conhecimentos ancestrais”, observa.

Ao falar diretamente aos estudantes indígenas, ele deixa uma mensagem de incentivo para que ocupem espaços e se tornem referências para os que virão depois.

“Que vocês sonhem em ser a representação, a representatividade do seu povo”, diz.

Já aos docentes não indígenas, faz um apelo para que procurem informação e não perpetuem visões estereotipadas.

“Quando for trabalhar a questão indígena, de fato trabalhem com povos que existam, com situações, culturas, histórias”, reforça.

Formação técnica e autonomia

Dentro desse debate, experiências recentes de formação técnica também ajudam a ilustrar como a educação pode estar vinculada à garantia de direitos e ao fortalecimento dos territórios.

Coordenadora do primeiro curso técnico indígena em Recursos Pesqueiros do Brasil, ofertado pelo Ifac, no território Noke Koî, em Cruzeiro do Sul, a professora Meyrecler Padilha explica que a proposta surgiu a partir de uma necessidade concreta das comunidades.

Educação é uma das principais ferramentas de respeito à cultura indígena – Foto acervo pessoal

Segundo Padilha, o território é atravessado pela BR-364 e cercado por fazendas e latifúndios, o que vem afetando diretamente o modo de vida tradicional e tornando mais difíceis atividades como caça e pesca. Diante disso, o curso foi pensado como alternativa sustentável para fortalecer a segurança alimentar e capacitar os próprios indígenas no manejo de peixes em tanques já existentes nas aldeias.

“O curso foi pensado como uma forma de capacitar os indígenas para o manejo e a produção de peixes, respeitando suas realidades e saberes tradicionais”, explica.

Meyrecler afirma que a formação dialoga com os conhecimentos já presentes nas comunidades e os articula ao saber técnico-científico.

“Valoriza o que as comunidades já sabem, como os ciclos da natureza e o comportamento dos peixes, e acrescenta técnicas de piscicultura, manejo e qualidade da água”, destaca.

Para a coordenadora, esse tipo de iniciativa contribui para segurança alimentar, geração de renda, autonomia e preservação dos territórios.

A professora também aponta entraves para ampliar o acesso à educação voltada aos povos indígenas, como dificuldade de chegar às aldeias, falta de infraestrutura, escassez de recursos e ausência de políticas públicas permanentes.

Processo de educação indígena não pode construído de “fora para dentro” – Foto acervo pessoal

“É fundamental formar professores preparados para atuar nesses contextos e garantir que os cursos estejam alinhados às necessidades reais das comunidades e que respeitem suas culturas”, afirma.

Mais que acesso, reconhecimento

Ao refletir sobre o significado dessa experiência no contexto do Dia dos Povos Indígenas, Meyrecler resume que a educação precisa ser entendida como instrumento de valorização cultural e de promoção da dignidade.

“A educação tem um papel fundamental na valorização das culturas indígenas, pois reconhece e integra seus saberes, línguas e modos de vida”, diz.

Formações de educadores indígenas – Foto cedida

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