
Um novo estudo da Universidade Federal do Acre (Ufac) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) revela que o Acre acumulou 24.610 quilômetros de estradas e ramais entre 1989 e 2025, com uma média de 540 quilômetros abertos por ano, em um processo que, segundo os pesquisadores, tem implicações que vão além da mobilidade e alcançam o desmatamento, a ocupação territorial e a pressão sobre áreas protegidas.
O levantamento intitulado Expansão de estradas e ramais no Estado do Acre: 1989 a 2025 mostra que os períodos de maior expansão ocorreram em 2006, 2019, 2020 e 2025, quando a média anual chegou a 1.340 quilômetros — mais que o dobro da média histórica.
Segundo o estudo, 35% da rede viária identificada está em projetos de assentamento, mas um dado chama atenção: 12% dos ramais já estão dentro de unidades de conservação, somando 2.949 quilômetros.
Um dos principais alertas do relatório é o avanço recente dentro de áreas protegidas. De acordo com os pesquisadores, 52% dos ramais identificados em unidades de conservação surgiram apenas entre 2019 e 2025, indicando uma intensificação recente da pressão sobre territórios destinados à proteção ambiental.
Entre os casos destacados estão: 186 quilômetros de ramais na Resex Chico Mendes e 67 quilômetros na Resex Cazumbá-Iracema. O relatório também aponta a abertura de um ramal com mais de 20 quilômetros dentro da Resex Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira.
Os autores relacionam esse movimento à expansão da fronteira agrícola e ao aumento do desmatamento.
Municípios concentram maior expansão
Seis municípios concentram 52% de toda a malha viária mapeada: Rio Branco; Sena Madureira; Xapuri; Brasiléia; Feijó; e Bujari. Somente em 2025, Sena Madureira registrou 284 quilômetros de novos ramais, seguida por Rio Branco (195 km) e Feijó (187 km).
Conexões com Peru, Bolívia e outros estados ampliam preocupação
O estudo também identificou conexões dos ramais acreanos com territórios vizinhos: 72 conexões com o Amazonas; 3 com Rondônia; 19 com Pando, na Bolívia; e 4 com Madre de Dios, no Peru
Para os pesquisadores, essas ligações ampliam a necessidade de monitoramento regional e cooperação para conter pressões ambientais e atividades irregulares.
Estradas trazem acesso, mas exigem controle
O relatório reconhece a importância dos ramais para garantir acesso a serviços como saúde, educação e transporte, especialmente em áreas isoladas. Mas faz um alerta: a abertura dessas vias, sem planejamento e controle, pode ampliar impactos ambientais e sociais.
Outro dado relevante é que terras indígenas concentram menos de 1% dos ramais identificados, embora o estudo aponte pressão crescente no entorno desses territórios.
A conclusão dos pesquisadores é que o avanço da malha viária no Acre não representa apenas expansão da infraestrutura rural, mas pode estar associado a novas frentes de ocupação, desmatamento e pressão sobre áreas protegidas.
Mais do que mapear vias, o estudo trata os ramais como indicadores de mudanças no uso do território. O relatório defende maior fiscalização, controle sobre a abertura dessas vias e ações integradas em nível regional para enfrentar o problema.








