Rio Branco, 5 de maio de 2026.

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Há 90 anos, um avião pousava no Rio Acre e mudava a história do isolamento no estado

Avião “Taquary” pousado nas águas do Rio Acre em 1936 – Foto autoria desconhecida

Há 90 anos, um acontecimento histórico mudava para sempre a forma como o Acre se conectava ao restante do Brasil. No dia 5 de maio de 1936, um avião da Companhia Condor, modelo Junker W-34, batizado de “Taquary”, pousava nas águas do Rio Acre, em Rio Branco, inaugurando oficialmente a aviação no estado.

Naquela época, não havia aeroportos. Os primeiros voos utilizavam hidroaviões que pousavam diretamente no rio, levando e trazendo passageiros, correspondências e mercadorias, em uma região onde o transporte era limitado às vias fluviais e, em menor escala, às precárias estradas.

Um estudo publicado em 2021 na Revista Brasileira de Aviação Civil e Ciências Aeronáuticas, intitulado A Aviação no Estado do Acre e os Desafios do Isolamento, dos pesquisadores Marcelo Holanda Ramos e Joel Irineu Lohn, ambos da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) mostra que o feito representou o início de uma transformação profunda em que aviação passou a ser um elemento estratégico para integrar o Acre ao restante do país, encurtando distâncias e reduzindo o isolamento geográfico que historicamente marcou o estado.

Do improviso à infraestrutura moderna

Pouco tempo depois, em 1937, foi construída a primeira pista de pouso em Rio Branco, inaugurada pelo interventor Epaminondas Martins e batizada de Santos Dumont. A partir dali, outros municípios começaram a implantar seus próprios campos de aviação, ampliando a conectividade regional.

Campo de pouso de Rio Branco em 1948 – Foto Fonte Melo

Com o passar das décadas, a infraestrutura evoluiu. O estado contou com o Aeroporto Salgado Filho, nos anos 1940, e posteriormente com o Aeroporto Presidente Médici, inaugurado em 1973, que já recebia aeronaves de maior porte, como o Boeing 737.

Em 1999, foi inaugurado o atual Aeroporto Internacional de Rio Branco – Plácido de Castro, consolidando um novo patamar de integração aérea para o Acre, com voos regulares nacionais e, ocasionalmente, internacionais.

A aviação como ferramenta contra o isolamento

Mesmo com avanços significativos, a aviação continua sendo, até hoje, uma das principais alternativas para superar o isolamento geográfico do Acre. Localizado na região Norte, distante dos grandes centros urbanos do país, o estado ainda enfrenta desafios logísticos importantes. Em muitas localidades, o acesso ainda depende de rios ou de estradas com condições precárias, especialmente em períodos de chuvas intensas ou seca severa.

Dos 22 municípios acreanos, apenas 8 possuem aeródromos oficiais: Porto Walter, Feijó, Manoel Urbano, Marechal Thaumaturgo, Tarauacá, Xapuri, Jordão e Santa Rosa do Purus. Ainda assim, a quantidade de deslocamentos via aérea tem crescido nos últimos anos em decorrência de investimentos do Governo do Acre.

Dados do Relatório de Controle Aeroportuário de 2025, divulgado pelo Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária (Deracre), ao longo do ano passado, a malha aérea que atende comunidades do interior do estado registrou 11.906 voos, número superior às 9.162 operações contabilizadas em 2024 e às 7.123 registradas em 2023.

Nesse cenário, o transporte aéreo assume papel fundamental — seja para deslocamento de pessoas, transporte de insumos, atendimento médico ou integração econômica. No entanto, o alto custo das passagens e a limitada oferta de voos ainda são obstáculos significativos para a população.

Tragédias que marcaram gerações

Registro do resgate do acidente que matou Dom Giocondo Maria Grotti em 1971 – Foto internet

Ao longo dessas nove décadas, a aviação acreana também acumulou episódios trágicos que marcaram profundamente a memória da população.

O primeiro grande acidente registrado ocorreu em Xapuri, em 1951, quando um avião do governo caiu durante tentativa de pouso e matou três pessoas, incluindo José de Melo, o então delegado-geral do município.

Em 1971, o Acre viveu o maior desastre aéreo de sua história em número de vítimas. A queda de um avião da Cruzeiro do Sul, entre Sena Madureira e Rio Branco, deixou 33 mortos, entre passageiros e tripulantes. Entre as vítimas estava Dom Giocondo Maria Grotti, então bispo da Diocese do Acre.

Outro acidente de grande repercussão ocorreu em 2002, quando um avião da Rico Linhas Aéreas caiu durante forte chuva nas proximidades do aeroporto de Rio Branco. Das 31 pessoas a bordo, 23 morreram.

Esses episódios reforçam os desafios históricos da aviação na região amazônica, onde fatores climáticos, geográficos e estruturais sempre representaram obstáculos adicionais à operação aérea.

Um passado de integração e um futuro de desafios

Ao longo de sua trajetória, a aviação no Acre foi marcada pela atuação de importantes companhias aéreas, como Panair do Brasil, Cruzeiro do Sul, VARIG, VASP e outras, que contribuíram para integrar o estado ao restante do país e impulsionar seu desenvolvimento econômico e social.

Voo da Azul chegando ao Acre em 2024 – Foto Neto Lucena/Secom

Hoje, apesar da modernização da infraestrutura aeroportuária e da presença de companhias aéreas nacionais, o Acre ainda enfrenta desafios importantes: o custo elevado das passagens, a limitação de rotas e a necessidade de ampliação da conectividade regional.

Noventa anos após o primeiro pouso histórico, a aviação continua sendo mais do que um meio de transporte no Acre — é uma ferramenta essencial para vencer distâncias, reduzir desigualdades e garantir a integração de um estado que, apesar dos avanços, ainda convive como isolamento.

Aeródromos do interior são essenciais para a população, principalmente para os municípios isolados e casos de atendimentos de saúde – Foto Ascom Deracre

*Além do estudo A  Aviação no Estado do Acre e os Desafios do Isolamento, essa matéria possui informações retiradas de relatórios do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e da Agência de Notícias do Acre.

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