Rio Branco, 7 de junho de 2026.

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Barbearia feminina, já!

Uma das vantagens de ser mãe de menino é que, quando o cabelo do filho já está ultrapassando todos os limites aceitáveis da civilização moderna, você ganha um passe livre para invadir um território exclusivamente masculino: a barbearia.

E que lugar curioso.

Ali, os homens parecem entrar em um portal para outra dimensão. Uma espécie de SPA da testosterona. Um refúgio onde não existem esposas pedindo para trocar a lâmpada da cozinha, namoradas perguntando “o que foi?” quando claramente alguma coisa foi, nem chefes cobrando relatórios de última hora.

Eles chegam, sentam e… silenciam.

Não há uma roda analisando a vida amorosa da vizinha, nem atualizações sobre quem traiu quem, quem fez harmonização facial ou quem apareceu na festa com a mesma roupa. No máximo, alguém comenta o resultado do jogo, reclama do desempenho do time e pronto. Missão cumprida. O silêncio volta a reinar.

A decoração também merece destaque.

Enquanto os salões femininos costumam apostar em tons claros, flores, espelhos iluminados e aquela eterna tentativa de reproduzir um ambiente digno de uma princesa da Disney, a barbearia escolheu outro caminho.

Tudo é preto.

Parede preta. Sofá preto. Bancada preta. Às vezes surge um quadro com um bigode gigante ou a imagem obrigatória de um lenhador barbudo que aparentemente mora numa floresta canadense, corta árvores no café da manhã e modela a barba com óleo essencial à tarde.

E as poltronas?

Meu Deus do céu.

Que conforto é aquele?

Nunca vi nada parecido em salão feminino. Em alguns salões para mulheres, saio do lavatório precisando de atendimento ortopédico. O pescoço fica numa posição tão improvável que você começa a entender como surgem as hérnias cervicais.

Já na barbearia, o homem praticamente entra em estado de hibernação.

Primeiro vem o corte.

Depois lavam o cabelo.

Depois ele retorna para uma poltrona tão confortável que parece ter sido projetada pela NASA.

E aí começa o espetáculo.

Toalha quente.

Cremes.

Hidratantes.

Óleos.

Massagem.

Um aparelho misterioso que vibra pelos ombros, pescoço, peito e rosto. Não faço ideia do que seja. Talvez tecnologia militar adaptada para fins estéticos.

O barbeiro trabalha em silêncio, com uma concentração de neurocirurgião. Enquanto isso, o cliente já está em outro plano astral.

Existe ali uma linha muito tênue entre o discurso do “homem raiz” e a realidade dos fatos.

Porque o mesmo cidadão que diz não gostar de frescura está há vinte minutos recebendo toalha quente, hidratação facial, massagem relaxante e aromaterapia disfarçada.

No auge da experiência, a toalha cobre os olhos, a navalha desliza cuidadosamente pelo rosto e, em muitos casos, o sujeito simplesmente adormece.

Ronca.

Ali mesmo.

No meio do procedimento.

E ninguém julga.

Ninguém filma.

Ninguém comenta.

Porque todos entendem que aquele é um momento sagrado.

Foi então que percebi uma grande injustiça da humanidade.

Nós, mulheres, passamos horas em salões de beleza. Fazemos cabelo, unha, sobrancelha, depilação, procedimentos estéticos dos mais variados. Gastamos pequenas fortunas para sair bonitas.

Mas onde está a nossa toalha quente?

Onde está a nossa poltrona da NASA?

Onde está o nosso momento de ficar imóvel, em silêncio, recebendo massagem enquanto alguém resolve nossa aparência sem nos perguntar se queremos cortar “só as pontinhas”?

Por isso, deixo aqui minha reivindicação pública.

Não quero igualdade salarial neste texto.

Não quero discutir política.

Não quero debater questões filosóficas profundas.

Quero apenas uma coisa:

Barbearia feminina, já!

Lane Valle é jornalista, fonoaudióloga e colunista do Portal Acre.

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