Rio Branco, 15 de junho de 2026.

1200X250

De “Alasca brasileiro” a estado da Federação: o significado dos 64 anos de autonomia do Acre

Palácio Rio Branco, sede do Governo do Acre – Foto Arquivo Secom

Poucos sabem, mas muito antes de conquistar sua autonomia política, o Acre foi comparado ao Alasca, região então remota e pouco integrada dos Estados Unidos. A analogia surgiu em 1909, durante os debates travados no Congresso Nacional sobre o futuro do então Território Federal. O responsável pela comparação foi o deputado federal cearense Justiniano de Serpa, relator de um projeto que propunha a reorganização administrativa da região.

Resgatado pelo historiador André Vasques Vital no artigo “O Alasca brasileiro: debates sobre a autonomia do Acre na imprensa e no Congresso Nacional em 1909”, o episódio revela um aspecto pouco conhecido da história acreana. Para Serpa, o exemplo do Alasca demonstrava que uma região distante, pouco povoada e estrategicamente importante poderia permanecer sob administração federal sem prejuízo para seu desenvolvimento. O argumento era utilizado para rebater as reivindicações de autonomia política que começavam a ganhar força no Acre.

A comparação provocou reações imediatas. Lideranças acreanas e setores da imprensa passaram a contestar a tese, argumentando que o território precisava de mais representação política, investimentos públicos e capacidade de decidir seus próprios rumos. Assim, o debate sobre o “Alasca brasileiro” acabou se transformando em um dos capítulos mais emblemáticos da longa luta acreana pela autonomia.

Somente em 15 de junho de 1962, após décadas de mobilização política, o Acre deixaria de ser Território Federal para se tornar oficialmente estado da Federação. A conquista garantiu aos acreanos o direito de eleger seu governador, ampliar sua representação no Congresso Nacional e fortalecer instituições próprias de governo.

No entanto, a experiência acreana com a autonomia foi passageira. Dois anos depois, o direito de os acreanos elegerem seus representantes diretamente foi suprimido pelo golpe militar de 1964. Após o pleito de 1962, o primeiro governador eleito do Acre, José Augusto de Araújo, foi deposto pela ditadura e, ao longo das duas décadas seguintes, os governadores passaram a ser indicados indiretamente pelo regime.

O Acre voltou a eleger um governador pelo voto direto apenas em 15 de novembro de 1982, quando os eleitores foram às urnas para escolher Nabor Júnior como chefe do executivo estadual. A normalização democrática que permitiu a escolha direta ocorreu no contexto do processo de abertura política do país.

Sessenta e quatro anos depois, a data convida não apenas à lembrança e à celebração, mas também à reflexão. Afinal, o que significa a tão sonhada autonomia? O Acre é, nos dias atuais, efetivamente autônomo?

As perguntas continuam atuais porque os desafios que moviam os autonomistas do passado permanecem presentes sob novas formas. Diante de um cenário de profunda dependência de recursos federais, questões como infraestrutura, integração regional, desenvolvimento econômico, preservação ambiental e ampliação das oportunidades para a população continuam exigindo capacidade de planejamento e protagonismo político.

O estudo de André Vasques Vital mostra que, já em 1909, os defensores da autonomia argumentavam que o Acre precisava deixar de ser apenas um território administrado à distância para se tornar um espaço capaz de construir seu próprio projeto de futuro. Mais de um século depois, essa ideia continua sendo um dos pilares da identidade acreana.

Nesse sentido, os 64 anos de autonomia representam mais do que uma mudança administrativa ocorrida em 1962. Eles simbolizam a consolidação de uma trajetória iniciada muito antes, quando homens e mulheres da Amazônia acreana passaram a reivindicar o direito de decidir os rumos da terra que ajudaram a construir.

Em cidades como Xapuri, berço da Revolução Acreana, cuja história se confunde com a própria formação do Acre, a data ganha significado especial. Ela recorda que a autonomia não foi um presente concedido, mas uma conquista construída ao longo de décadas de mobilização política, resistência e afirmação de identidade.

Ao celebrar este 15 de junho, o Acre homenageia aqueles que lutaram para transformar o antigo “Alasca brasileiro” em um estado plenamente integrado à Federação. E, ao mesmo tempo, renova o compromisso de continuar construindo, com voz própria, os caminhos para o seu futuro.

Compartilhe em suas redes

» Mais Lidas

1
Tião Bocalom destaca importância da liberdade de imprensa durante...
2
Empreendedores podem participar de feiras em Rio Branco; Saiba co...
3
Médicos do estado decidem deflagrar greve na sexta-feira
4
Boa notícia
Parceria amplia oferta de exames a crianças no Acre
5
Pedro Pascoal diz que greve dos médicos coloca vidas em risco
Grupo Oficial no WhatsApp

» Notícias Relacionadas

BANNER SF 1200x250