Rio Branco, 7 de julho de 2026.

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Primeiro feminicídio de 2026 reforça alerta sobre alta da violência contra mulheres no Acre

Acre voltou ao patamar de 2018, um dos anos mais críticos de casos de feminicídio – Foto reprodução

O assassinato de Juliana Barbosa Cerqueira, de 44 anos, morta a facadas pelo ex-marido na manhã do último domingo (5), no Ramal do Japãozinho, zona rural de Cruzeiro do Sul, marca o primeiro feminicídio registrado no Acre em 2026 e reforça um cenário que já havia acendido o alerta de nova alta nesse tipo de crime no estado após a divulgação dos dados mais recentes do Feminicidômetro, do Ministério Público do Estado do Acre (MPAC).

De acordo com informações divulgadas pelo portal G1 Acre, Juliana estava em processo de separação e possuía uma medida protetiva contra o ex-companheiro, Aldemir Abreu de Oliveira, de 46 anos. Após cometer o crime, ele tirou a própria vida. Eles conviveram por 30 anos e tinham cinco filhas. Segundo o delegado Vinícius Almeida, responsável pelas investigações, testemunhas começaram a ser ouvidas nesta segunda-feira (6) para esclarecer as circunstâncias do caso.

A morte ocorre poucos meses depois de o Feminicidômetro revelar que o Acre voltou, em 2025, ao mesmo patamar de feminicídios registrado em 2018, um dos anos mais críticos da série histórica iniciada pelo Observatório de Violência de Gênero (OBSGênero). A taxa passou de 1,82 feminicídio por 100 mil mulheres, em 2024, para 3,28 em 2025, um aumento de aproximadamente 80% em apenas um ano, praticamente repetindo o índice de 2018, quando foram registrados 3,52 casos por 100 mil mulheres.

Os números interromperam uma sequência de queda observada entre 2022 e 2024 e evidenciaram que a violência letal contra mulheres continua sendo um dos principais desafios da segurança pública e da proteção social no estado. Entre 2018 e 2025, o Acre contabilizou 91 feminicídios consumados e outras 158 tentativas.

Em publicação divulgada pelo MPAC em março deste ano, a coordenadora-geral do Centro de Atendimento à Vítima (CAV) e do Observatório de Violência de Gênero (OBSGênero), promotora de Justiça Bianca Bernardes de Moraes, alertou que os feminicídios raramente acontecem de forma repentina. Segundo ela, cada assassinato representa o estágio final de uma sequência de violências que normalmente começa com agressões psicológicas, morais, patrimoniais e físicas.

“O Ministério Público compreende o feminicídio como a expressão mais extrema de um continuum de violências estruturais baseadas em gênero. Na maioria das situações havia sinais anteriores de risco”, afirmou a promotora.

O caso registrado em Cruzeiro do Sul chama atenção justamente por envolver uma mulher que já havia buscado proteção judicial por meio de uma medida protetiva, circunstância que será analisada durante a investigação para compreender toda a dinâmica do crime.

Medidas protetivas ainda não chegam à maioria das vítimas

Embora a Lei Maria da Penha tenha fortalecido os mecanismos de proteção às mulheres e as medidas protetivas sejam reconhecidas como uma das principais ferramentas para reduzir o risco de morte, o próprio MPAC aponta que a maioria das vítimas de feminicídio no Acre sequer chegou ao sistema de Justiça antes do crime.

Entre os fatores apontados estão o medo do agressor, a dependência financeira, a ausência de apoio familiar, as dificuldades de acesso aos serviços especializados e limitações estruturais da rede de atendimento. No caso de Juliana, entretanto, a existência de uma medida protetiva não foi suficiente para preservar a sua vida.

Feminicidômetro

Criado em 2021, o Feminicidômetro reúne dados da Segurança Pública, do Ministério Público e do Tribunal de Justiça para monitorar os casos de feminicídio e subsidiar políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher.

Apesar do avanço na produção de informações e do elevado índice de responsabilização dos autores — 46 condenações entre os 90 investigados e apenas uma absolvição, segundo o MPAC —, a instituição reconhece que o desafio permanece.

Os processos ainda levam, em média, entre três e quatro anos para serem concluídos, e especialistas defendem o fortalecimento da rede de atendimento, da avaliação de risco e da prevenção para impedir que casos de violência doméstica evoluam até sua consequência mais extrema.

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