Rio Branco, 1 de setembro de 2026.

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Após recorde de 37,1°C, pesquisadores explicam aumento de temperaturas no Acre

O Acre entra em setembro depois de uma sequência de dias de calor intenso que culminou em um novo recorde de temperatura em Rio Branco. No último domingo (30/8), a capital registrou 37,1°C, maior temperatura de 2026, segundo a empresa Climatempo. Nos dias 27 e 29 de agosto, a cidade havia marcado 36,4°C.

E a tendência é de que o calor continue. A previsão climática do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para setembro indica temperaturas acima da média em grande parte da Região Norte, com desvios positivos que podem chegar a aproximadamente 1,5°C em áreas da região.

O cenário ocorre em meio ao fortalecimento do El Niño, fenômeno que deverá influenciar as condições de temperatura e chuva no país ao longo do mês. A análise da Climatempo aponta que o Pacífico Equatorial continua aquecido e que o fenômeno pode atingir seu pico entre a primavera e o início do verão.

El Niño favorece calor no Norte

Pesquisadora da UFAC falou sobre a importância do El Niño para o calor elevado – Foto acervo pessoal

Para entender melhor o que está acontecendo no estado, o Portal Acre conversou com dois pesquisadores com atuação na área ambiental. Sonaira Silva, da Universidade Federal do Acre (UFAC), Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul, o El Niño tem papel importante na explicação dos períodos de calor elevado registrados no estado.

“Mesmo sem o aquecimento do Atlântico, quando tem só o El Niño, a gente já tem o aumento das temperaturas em todo o Norte. Isso é uma característica desse tipo de evento”, afirma Sonaira.

Segundo a pesquisadora, o efeito pode ser ainda mais intenso quando o aquecimento do Pacífico se combina às condições observadas no Atlântico. Ela explica que a redução das chuvas também contribui para elevar as temperaturas.

“A falta de chuva aumenta a temperatura, mas o El Niño, a característica dele é tanto a falta de chuva, mas também o calor excessivo”, destaca.

Sonaira chama atenção ainda para um contexto climático mais amplo. Segundo ela, os oceanos do planeta estão mais aquecidos que a média, o que também interfere no comportamento da atmosfera e pode potencializar os extremos de temperatura.

Aquecimento já aparece nas séries históricas

O calor registrado nos últimos dias de agosto, porém, não deve ser analisado apenas como consequência de um episódio de El Niño. O doutorando Rodrigo Gama, do programa de Doutorado em Biodiversidade e Biotecnologia da Rede Bionorte/UFAC, afirma que o Acre vem apresentando aumento significativo das temperaturas nas últimas décadas.

“Esse fenômeno não é isolado: pesquisas já desenvolvidas e publicadas por nossa equipe indicam que toda a Amazônia Legal Brasileira vem passando por um processo de aquecimento acentuado”, afirma.

Segundo Rodrigo, estudos anteriores, considerando o período de 1973 a 2013, identificaram variações térmicas de 0,3°C a 5°C por década na Amazônia Legal. Uma pesquisa mais recente, concentrada especificamente em Rio Branco entre 1980 e 2024, encontrou aumentos de 0,3°C na temperatura média, 0,4°C na temperatura máxima e 0,5°C na temperatura mínima.

“Esses valores evidenciam que tanto as manhãs quanto as tardes estão, de fato, mais quentes, reforçando a tendência de aquecimento contínuo e consistente na região”, explica o pesquisador.

Setembro deve manter temperaturas elevadas

O prognóstico do Inmet reforça a perspectiva de um mês mais quente que o normal. Para a Região Norte, são previstos desvios positivos de temperatura entre 1°C e 2°C, aproximadamente, com grande parte das áreas apresentando valores de até 1,5°C acima da média climatológica.

Na chuva, o cenário é menos uniforme. Para o Acre, o instituto prevê volumes próximos ou acima da média no oeste do estado, enquanto outras áreas da Região Norte devem registrar precipitação abaixo do normal.

A combinação entre temperaturas elevadas e períodos de menor chuva será um dos pontos de atenção para a região. O próprio Inmet alerta que, em grande parte do Norte, temperaturas mais altas associadas à redução das precipitações podem aumentar a demanda evaporativa da atmosfera e reduzir a disponibilidade de água no solo.

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