Rio Branco, 1 de maio de 2026.

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“Sou mulher da colônia”: liderança camponesa destaca força feminina e autonomia no campo

Aos 34 anos, Ana Maria coordena o Movimento Mulheres Camponesas em Xapuri – Foto acervo pessoal

Aos 34 anos, a agricultora e seringueira Ana Maria Reis representa a realidade de muitas mulheres que vivem e trabalham na zona rural do Acre. Nascida no seringal Chipamanu, no lado boliviano da fronteira, ela cresceu em meio à floresta e ao trabalho extrativista. Hoje, mora no seringal Fronteira, na região do Rio Xapuri, dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, onde construiu sua família e mantém viva a tradição do trabalho no campo.

Além da rotina na roça e na floresta, Ana Maria assumiu há um ano uma nova missão: coordenar o Movimento de Mulheres Camponesas em Xapuri, organização que vem se fortalecendo no município e já reúne cerca de 100 mulheres, divididas em quatro bases de atuação. Segundo ela, o movimento surgiu como um espaço de fortalecimento, troca de experiências e incentivo para que as mulheres ocupem cada vez mais espaços na comunidade.

“Nosso trabalho é proporcionar que a mulher camponesa se liberte de antigas amarras. Do pensamento de que seu lugar é apenas em casa. Nós podemos e queremos estar em todos os lugares. A mulher tem que estar do lado do homem e não à sua sombra. Eu e meu esposo temos um companheirismo muito bonito, porque em tudo ele me dá força. O homem e a mulher são parceiros. Um tem que segurar na mão do outro e dizer: vai lá, você é capaz”, afirma.

Identidade de mulher do campo

Ana faz questão de ressaltar com orgulho sua origem e identidade como trabalhadora rural – Foto: cedida

Ao falar de sua trajetória, Ana Maria faz questão de destacar com orgulho sua origem e identidade como trabalhadora rural: “Eu moro em colônia, sou seringueira, sou agricultora. Corto seringa, quebro castanha, broco. O que tiver para fazer na mata a gente faz. Sou mulher do campo mesmo e tenho orgulho de ser quem eu sou. Eu me sinto uma vencedora”, diz.

No Acre, o termo “colônia” é usado para se referir às pequenas propriedades rurais onde famílias vivem da agricultura e do extrativismo. Ao lado do esposo, Renildo, ela mantém uma produção baseada na agricultura familiar de subsistência. Na propriedade, o casal planta arroz, feijão, milho e mandioca, além de cultivar hortaliças e manter um quintal produtivo, prática comum entre famílias da floresta.

Um princípio que orienta o trabalho da família é o não uso de agrotóxicos, priorizando práticas naturais de cultivo. “Quem mora no campo sabe que é uma vida saudável. A gente planta o que come e vive do próprio trabalho. Eu sou uma pessoa que gosta de gastar o dinheiro, mas que também gosta de ganhar esse dinheiro, trabalhando”, ressalta.

Quintais produtivos e autonomia feminina

Ana Maria também é beneficiária do Programa Quintais Produtivos, iniciativa lançada pelo Governo Federal em 2023 com o objetivo de fortalecer a autonomia econômica e a segurança alimentar de mulheres rurais, agricultoras e moradoras de periferias urbanas por meio de práticas agroecológicas.

O programa incentiva a produção diversificada de alimentos nos quintais das propriedades, permitindo que as famílias ampliem a oferta de produtos para o consumo próprio e, em alguns casos, para a comercialização, contribuindo para a geração de renda.

No caso de Ana Maria, a iniciativa reforça práticas que ela já desenvolvia em sua propriedade, valorizando o cultivo de alimentos sem agrotóxicos e o aproveitamento do espaço ao redor da casa para produzir verduras, legumes e plantas medicinais.

“Eu gosto muito de plantar. No meu quintal sempre tem alguma coisa produzindo. A gente cuida, planta e colhe para a própria família. É uma forma de ter uma alimentação saudável e também de garantir alguma renda”, explica.

Entre as pautas defendidas por ela no Movimento de Mulheres Camponesas está justamente ampliar o acesso de outras agricultoras ao programa, para que mais famílias possam fortalecer sua produção e sua segurança alimentar.

Incentivo à participação das mulheres

Para Ana Maria, a participação das mulheres em organizações e movimentos sociais é um caminho importante para fortalecer a voz feminina nas comunidades rurais e ampliar as oportunidades para quem vive no campo. Ela também destaca que o apoio dentro da própria família é fundamental para que as mulheres consigam participar das atividades e assumir novos papéis de liderança.

Colona luta para ampliar a participação das mulheres em organizações e movimentos sociais – Foto cedida

“Eu sempre digo para os maridos: deem força para suas esposas. Segurem na mão delas e digam que elas são capazes. A mulher é parceria dentro de casa e também na luta pelos objetivos da família.”

Com um ano de organização em Xapuri, o Movimento de Mulheres Camponesas segue em expansão no município. A expectativa da coordenadora é que cada vez mais mulheres da zona rural se integrem às atividades.

“Muitas mulheres ainda estão devagar, mas a gente vai chamando, conversando, mostrando que elas podem participar. Mulher é parceria, é força, e juntas a gente consegue alcançar nossos objetivos.”

A trajetória de Ana Maria Reis é uma demonstração de como o protagonismo feminino tem crescido na floresta junto com o trabalho na terra e a organização comunitária, reforçando o papel das mulheres na produção de alimentos, na preservação da floresta e no desenvolvimento das comunidades rurais.

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