
“Depois que aconteciam as agressões, ele voltava, pedia desculpas, dizia que me amava, e eu acreditava”.
A frase é de Vanderleia da Silva, que viveu anos em um relacionamento marcado por violência psicológica, controle e agressões físicas. Em uma data como o 8 de março, quando se celebra o Dia Internacional da Mulher e se multiplicam gestos simbólicos como flores, chocolates e mensagens de carinho, histórias como a dela mostram que, a data ainda é mais um momento de reflexão do que de comemoração.
Aos 21 anos, Vanderleia viveu dois anos e meio de humilhações, controle financeiro, isolamento, traições e tapas que começaram como “crises de ciúme” e evoluíram para agressões físicas.
“O primeiro tapa me deixou em choque. Meu pai nunca tinha levantado a mão para mim”, lembra.
Ela saiu várias vezes de casa, mas voltava, acreditando no arrependimento. O relacionamento começou como tantos outros: com promessas, carinho e planos para o futuro. Com o tempo, no entanto, as atitudes do companheiro começaram a mudar.
“Ele começou com crises de ciúmes. Às vezes era por causa de uma mensagem da minha mãe ou de alguma amiga. Ele dizia que eu estava escondendo coisas”, conta.
As desconfianças logo deram lugar aos xingamentos. Vieram as acusações, o controle sobre amizades e comportamentos e, depois, as agressões.
“Começou com palavras. Depois vieram os empurrões. Quando eu percebi, já estava vivendo aquilo há muito tempo”, relata.
Mesmo diante da violência, Vanderleia permaneceu no relacionamento. Segundo ela, o pedido de desculpas que sempre vinha depois das agressões a fazia acreditar que a situação poderia mudar.
“Depois que aconteciam as agressões, ele voltava, pedia desculpas, dizia que me amava, e eu acreditava”.
Vanderleia viveu esse ciclo por mais de dois anos, mesmo sabendo que aquilo não a fazia bem, ela não conseguia sair. O medo também teve papel decisivo para que ela permanecesse em silêncio. Em determinado momento, Vanderleia chegou a procurar ajuda na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam). Mas não levou a denúncia adiante.
“Eu tinha medo de ele vir atrás de mim depois. A gente pensa em tudo […] Eu também pensava: e se eu voltar? O que as pessoas vão pensar de mim? Isso passa pela cabeça da gente”, explica.
Apesar das dificuldades, Vanderleia conseguiu romper o ciclo da violência. Foi somente após o intermédio da mãe que ela conseguiu sair do relacionamento abusivo.
“Ela me ligava dizendo que ia dormir sozinha e chorava. E eu não podia estar ao lado dela, aquilo começou a pesar muito. Eu percebi que precisava sair daquela situação por mim e por ela”, disse.
Hoje, aos 33 anos, Vanderleia trabalha como secretária, é casada, e mãe de uma criança de 4 anos. Ela olha para o passado com outra perspectiva:
“Eu conquistei algo que eu não tinha antes: liberdade.”
Acre registra aumento de feminicídios e milhares de casos de violência doméstica
A história de Vanderleia da Silva ajuda a ilustrar uma realidade que vai muito além de um caso individual. No Acre, os números da violência contra a mulher seguem em patamar alarmante.
De acordo com dados do Feminicidômetro, ferramenta de monitoramento do Ministério Público do Estado do Acre (MPAC), o estado registrou 14 feminicídios em 2025. O número é superior à média observada nos últimos três anos e iguala o total registrado em 2018 e 2016, evidenciando uma intensificação da violência letal contra mulheres.

Segundo a promotora de Justiça, coordenadora-Geral do Centro de Atendimento à Vítima (CAV) e do Observatório de Violência de Gênero(OBSGênero) do MPAC, Bianca Bernardes, os dados não podem ser analisados de forma isolada, já que o feminicídio costuma ser o resultado de um histórico prolongado de diferentes formas de violência.
“O feminicídio constitui a expressão máxima de uma assimetria histórica de poder. Em regra, ele é precedido por um histórico progressivo de violências psicológica, moral, patrimonial, sexual e física, que muitas vezes são minimizadas ou sequer registradas”, explica.
Além dos casos de feminicídio, o estado também contabilizou 6.530 mil ocorrências de violência doméstica ao longo de 2025. O número pode ser ainda maior, já que especialistas apontam a existência de subnotificação destes crimes.
“Muitas mulheres permanecem silenciadas por medo, vergonha, descrédito institucional ou ausência de rede de apoio, especialmente em municípios do interior”, afirma a promotora.
Para a secretária de Estado da Mulher, Márdhia El-Shawwa, que também é delegada de polícia, o aumento dos casos não é uma realidade exclusiva do Acre, mas reflete um cenário nacional de crescimento da violência de gênero.
“No ano anterior foram oito casos de feminicídio no estado, e em 2025 esse número saltou para 14. Infelizmente, essa é uma realidade que acompanhou o aumento registrado em todo o país”, afirma.
Segundo a secretária, fatores culturais ainda têm forte influência nos índices de violência.
“Existe uma cultura de posse sobre as mulheres. Muitos homens não aceitam o fim do relacionamento e acabam reagindo com violência extrema”, diz.
O ciclo silencioso da violência
Para os especialistas, a maioria das relações abusivas segue um padrão semelhante: começam com comportamentos aparentemente pequenos, como ciúmes excessivos, controle ou humilhações, e evoluem gradualmente para agressões físicas e psicológicas mais graves.

Segundo a psicóloga Juliana Farhat, esse processo costuma ocorrer dentro do chamado ciclo da violência, conceito desenvolvido pela psicóloga norte-americana Lenore Walker. O modelo descreve três fases recorrentes nas relações abusivas: o aumento da tensão, a explosão da violência e o período de reconciliação, conhecido como “lua de mel”.
“Na fase de tensão, surgem comportamentos como críticas constantes, controle e manipulação emocional. Depois ocorre a explosão da violência, que pode ser física, verbal ou psicológica. Em seguida vem a fase da lua de mel, quando o agressor pede desculpas, promete mudar e demonstra afeto. Esse ciclo acaba criando na vítima a esperança de que a situação pode melhorar”, explica a psicóloga.
Esse padrão aparece de forma clara no relato de Vanderleia e de tantas outras vítimas. Após as agressões, o companheiro sempre voltava com pedidos de desculpas e promessas de mudança, algo que a fazia permanecer no relacionamento por mais tempo.
A violência psicológica, no entanto, costuma ser uma das formas mais difíceis de se identificar, ela pode ocorrer por meio de manipulação emocional, inversão de culpa e negação da realidade, muitas vezes de forma sutil e gradual.
Além da dinâmica emocional do relacionamento, fatores sociais também contribuem para a permanência das vítimas em relações abusivas. A Pesquisa Nacional de Violência Contra a Mulher, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão, aponta elementos como dependência econômica, medo de retaliação, vergonha, culpa e a crença de que o agressor não será punido como motivos frequentes para a continuidade da relação.
A rede de apoio também exerce papel decisivo nesse processo. Ainda de acordo com o Instituto Patrícia Galvão, a família costuma ser o primeiro lugar onde a mulher busca acolhimento e validação. Quando esse apoio não acontece, as chances de a vítima retornar ao relacionamento abusivo aumentam.
“Quando a mulher encontra uma rede de apoio que escuta sem julgamento e oferece suporte concreto, como abrigo, orientação e apoio emocional, as chances de romper o ciclo da violência se tornam muito maiores”, afirma Juliana Farhat.
Violência que ultrapassa o âmbito individual
Além dos impactos diretos sobre as vítimas, a violência contra a mulher também afeta a saúde mental coletiva. Pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicadas no relatório Violence Against Women Prevalence Estimates (2018), apontam que mulheres expostas à violência, direta ou indiretamente, apresentam maior prevalência de transtornos de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e sintomas psicossomáticos.
Segundo Juliana Farhat, a exposição constante a notícias de feminicídios e agressões pode gerar um efeito psicológico conhecido como traumatização vicária ou estresse traumático secundário.
“Quando mulheres são expostas repetidamente a relatos de violência contra outras mulheres, especialmente do mesmo grupo social, isso pode alterar a percepção de segurança e do mundo. Surge um sentimento coletivo de medo e vulnerabilidade”, explica.
O fenômeno é discutido em estudos sobre trauma coletivo, como o trabalho de Zamora et al. (2022), que aponta que a repetição dessas narrativas pode produzir sofrimento psíquico mesmo entre pessoas que não vivenciaram diretamente a violência.
“Não significa que todas as mulheres desenvolverão um transtorno psicológico, mas há aumento do sofrimento emocional, do medo e da sensação de insegurança. Não é apenas o medo de morrer. Muitas mulheres passam a sentir medo de se expressar, de terminar um relacionamento ou até de ocupar determinados espaços”, afirma a psicóloga.
“Eu vivia em um cativeiro”

No Acre, milhares de mulheres vivem situações semelhantes como a de Vanderleia todos os anos, muitas delas marcadas por múltiplas vulnerabilidades, como deficiência física, dependência financeira e desigualdades raciais.
Aos 55 anos, Adaires Costa dos Santos Lanes conhece de perto essa realidade. Paraplégica desde os três anos de idade, ela também viveu anos em um relacionamento marcado por controle, humilhações e violência psicológica.
Adaires havia perdido o primeiro marido em 2019, após 15 anos de casamento. Três anos depois, voltou do Espírito Santo para o Acre, atendendo ao pedido da família. Foi nesse retorno que conheceu o homem com quem se casaria novamente.
No início, a relação parecia apenas atravessar dificuldades comuns. Mas, com o tempo, o comportamento do companheiro passou a mudar. O que começou com crises de ciúmes evoluiu para controle constante, isolamento e violência psicológica.
“Eu só podia sair se fosse com ele. Até para ir na casa da minha mãe ele queria ir junto. Ele ficava ouvindo minhas conversas, mandava colocar o celular no viva-voz para saber tudo o que eu falava”, conta.
O controle se estendia a praticamente todos os aspectos da vida de Adaires. Ela relata que o marido acompanhava cada movimentação financeira, sabia quanto dinheiro havia em sua conta e decidia como o recurso seria gasto.
“Ele sabia quanto eu tinha na conta. Se sobrasse um real, ele pedia para comprar cigarro”, lembra.
Com a pensão que recebia e recursos de uma herança do primeiro casamento, Adaires reformou a casa onde passou a viver com o companheiro. Ainda assim, diz que nunca teve autonomia dentro do próprio lar.
Segundo ela, até mesmo as adaptações necessárias para sua mobilidade foram feitas de forma a aumentar a dependência.
“A rampa da casa foi feita de um jeito que eu não conseguia sair sozinha. Eu dependia dele para tudo. Foi assim que eu fiquei em cativeiro”, afirma.
Além do controle financeiro e da limitação física, Adaires relata episódios constantes de humilhações, xingamentos e tentativas de desqualificar sua saúde mental diante de outras pessoas.
“Na frente dos outros ele era carinhoso, me chamava de princesa. Mas em casa dizia que eu era louca, que ninguém além dele cuidaria de mim”, diz.
Com o passar do tempo, o impacto psicológico se tornou cada vez mais intenso. As crises de ansiedade e depressão se agravaram.
“Cheguei a pedir a Deus que tirasse minha vida, porque eu não via saída”, lembra.
A virada começou em 2025, quando Adaires participou de cursos oferecidos pela Secretaria de Estado da Mulher em parceria com o Senac no município de Capixaba. Durante as atividades, as participantes receberam orientações sobre violência doméstica e canais de ajuda. Ela guardou discretamente um dos panfletos com telefones de atendimento.
“Eu escondi dentro das minhas roupas íntimas para ele não encontrar”, conta.
A oportunidade de pedir ajuda surgiu meses depois, quando Adaires foi à Defensoria Pública para tratar de problemas financeiros causados por empréstimos feitos em seu nome pelo companheiro. Ao ficar sozinha na sala com o defensor, decidiu revelar o que estava vivendo.
“Eu disse que estava sendo mantida em cárcere privado e que precisava de ajuda para sair dali”, relata.
No dia seguinte, uma equipe do Judiciário foi até a casa onde ela vivia. Adaires saiu do local com uma medida protetiva baseada na Lei Maria da Penha e foi encaminhada para uma casa abrigo em Rio Branco.
Hoje, ela vive sozinha na capital acreana, sob acompanhamento da Patrulha Maria da Penha e da rede de proteção à mulher.
“Hoje eu estou livre. Ainda tenho receio, mas me sinto segura”, afirma.
Apesar das sequelas emocionais, Adaires diz que reencontrou algo que havia perdido durante os anos de violência: a possibilidade de viver com autonomia.
“Eu sou uma pessoa alegre. Aqueles anos foram os piores momentos da minha vida, mas agora estou reconstruindo minha história”, diz.
Desigualdades históricas e raciais aprofundam a violência
Ainda de acordo com dados da plataforma Feminicidômetro, do MPAC, no recorte do perfil das vítimas, cerca de 86% delas eram mulheres negras, ou seja, pretas ou pardas. 84% pertenciam à classe baixa, estavam na faixa etária dos 20 aos 34 anos e no campo de ocupação, a grande maioria era do lar, seguido por: estudante ou autônoma.

Para além dos números, especialistas apontam que compreender os altos índices de violência contra mulheres no Acre exige olhar para fatores históricos, sociais e raciais que atravessam a formação da região. A jornalista e pesquisadora de gênero e raça na Amazônia Hellen Lirtêz explica que o cenário atual também está ligado à forma como o território foi ocupado desde o período do ciclo da borracha.
Segundo ela, muitos homens que migraram para a região no início do século XX chegaram com uma lógica de exploração do território e também de controle sobre os corpos das mulheres.
“Há vários relatos históricos, em livros e jornais antigos, sobre a chamada ‘mulher pega no laço’. Na prática, isso significava capturar mulheres indígenas para que fossem domesticadas dentro das estruturas de casamento e de servidão doméstica”, afirma.
Para a pesquisadora, esse passado ajuda a entender parte das estruturas de desigualdade que ainda influenciam as relações de gênero na Amazônia.
Hellen ressalta que, quando se analisa a violência contra mulheres, é impossível separar a questão de gênero das desigualdades raciais. Segundo ela, mulheres negras e indígenas estão entre as mais vulneráveis à violência.
“Não tem como falar de gênero sem falar de raça. As mulheres, de forma geral, sofrem com a violência doméstica e o feminicídio, mas as mulheres negras, e aqui também precisamos incluir as mulheres indígenas, enfrentam uma vulnerabilidade maior”, explica.
De acordo com a pesquisadora, fatores como menor acesso à escolaridade, dificuldades de acesso a serviços públicos e dependência econômica tornam essas mulheres ainda mais expostas a situações de violência.
“Quando uma mulher é analfabeta, depende financeiramente do companheiro e vive em contextos de pouca assistência do Estado, as possibilidades de romper com uma relação violenta diminuem muito”, diz.
No caso das mulheres indígenas, a situação pode ser ainda mais complexa. Hellen aponta que a distância geográfica e as barreiras culturais também dificultam o acesso à rede de proteção.
“O Acre tem uma população indígena significativa e muitos municípios isolados. A ausência de dados mais detalhados sobre essas mulheres também impede que a gente compreenda completamente quais são as vulnerabilidades que elas enfrentam”, afirma.
Para a pesquisadora, o feminicídio costuma ser apenas o ponto final de um processo longo de violências acumuladas ao longo da vida.
“O feminicídio não acontece de forma isolada. Ele é resultado de várias outras violências que vão se somando ao longo dos anos, como o casamento infantil, o estupro de vulneráveis e a retirada precoce de meninas da escola”, explica.
Para Hellen Lirtêz, enfrentar esse cenário exige mais do que campanhas pontuais. Segundo ela, o combate à violência contra a mulher precisa envolver políticas públicas estruturais e ações que considerem as especificidades sociais da região.
“O feminicídio acontece no mundo inteiro, mas cada lugar tem suas particularidades culturais e históricas. Para enfrentá-lo de forma efetiva, é preciso compreender essas realidades e desenvolver políticas públicas que realmente alcancem essas mulheres”, conclui.
Onde buscar ajuda e romper o ciclo da violência
Especialistas e órgãos de proteção reforçam que mulheres em situação de violência não precisam enfrentar esse processo sozinhas. No Acre, a rede de atendimento conta com serviços de acolhimento psicológico, orientação jurídica, acompanhamento social e, em casos mais graves, medidas protetivas e encaminhamento para casas abrigo.
A Secretaria de Estado da Mulher (Semulher) mantém centros de atendimento voltados ao acolhimento e acompanhamento de vítimas de violência. Nessas unidades, mulheres podem receber orientação, apoio psicossocial e encaminhamento para outros serviços da rede de proteção.
De acordo com a pasta, buscar ajuda é um dos passos mais importantes para romper o ciclo da violência, especialmente quando a mulher encontra uma rede que oferece escuta, acolhimento e suporte para reconstruir a própria vida.
Entre os principais canais de atendimento estão:
* Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180: serviço nacional gratuito, que funciona 24 horas por dia e recebe denúncias, orienta vítimas e encaminha casos para a rede de proteção.
* Polícia Militar – 190: para situações de emergência ou quando a violência está acontecendo naquele momento.
* Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAMs) e Centros Especializados de Atendimento à Mulher (CEAMs), que oferecem atendimento psicossocial e orientação jurídica.
* Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), funciona 24 horas por dia, e fica localizada na Via Chico Mendes, em Rio Branco.
* Atendimento direto da Secretaria de Estado da Mulher, além de informações disponíveis pelo perfil oficial do órgão nas redes sociais @semulherac.
A denúncia pode ser feita pela própria vítima, por familiares, amigos ou qualquer pessoa que presencie situações de violência.
Mais do que flores, o que muitas mulheres precisam é de proteção, escuta e garantia de direitos.







