Maria Mariana Mota

A Casa de Acolhimento Souza Araújo, marcada por uma história que remonta às primeiras décadas do século XX, abriga, atualmente, 29 pacientes, sendo a maioria idosos. O local nasceu a partir do isolamento de pessoas com hanseníase às margens do rio Acre.
“Os primeiros doentes começaram a se juntar lá na beira do rio, depois, mais tarde, eles vieram para cá, para essa área que foi doada. E começaram a construir as primeiras casinhas”, relembra o médico José Furtado.
Aliás, o médico tem uma história curiosa com o local. Sua história se mistura com a da própria instituição. Durante anos, foi responsável por cuidar dos pacientes. Também portador da hanseníase, decidiu ficar e se tornou morador.
“Eu conheço aqui de longa data”, diz. “Acompanhei tudo isso… desde o final dos anos 70, começo dos anos 80. De lá para cá, mudou muito.”
Mudou, sobretudo, o número de moradores. “Chegou a ter 300, 400 doentes aqui, era coisa de louco, nem sei como dei conta do trabalho”, relembra a rotina insana. “Hoje são poucos. A média é de 30. Muitos já eram idosos, tinham outras doenças… e foram morrendo. Outros saíram, foram para vilas aqui perto.”

A rotina da casa, embora bem mais calma, segue viva. Em uma área aberta, homens se reúnem em torno de uma mesa para jogar dominó. As peças batem e marcam o tempo da convivência.
Dentro dos apartamentos, a organização chama atenção. Os quartos contam histórias de longas datas. Fotografias antigas, imagens religiosas, móveis simples, mas tudo com muito zelo. Em um deles, bonecas alinhadas em pequenas cadeiras compõem um cenário delicado.
É ali que mora Fátima Silva, que transforma o cotidiano em pequenos gestos de cuidado e companhia. “Eu gosto de cuidar das plantas e comprar vaso, ajuda a passar o tempo”, conta. “Também gosto muito do Roberto Carlos e de assistir jornal. O nome de uma daquelas boneca é Lady Laura”, aponta para a boneca com colar de pérolas.

Paredes desgastadas e pisos marcados mostram uma estrutura que sofreu a ação do tempo.
“A casa já tem muitos anos”, observa Dr. José Furtado. “Você pode ver o piso, as paredes… já está precisando de uma reforma.”
Mesmo assim, o funcionamento não para. Para manter o espaço, são cerca de 56 pessoas envolvidas, entre profissionais de saúde, equipe de apoio e administração.
À frente da gestão há uma década, a irmã Celene Souza acompanha de perto os desafios e a missão diária de manter o acolhimento. “Dentro das dificuldades, a gente procura oferecer um bom serviço, um acolhimento de verdade, com dignidade”, afirma.

“Aqui tem as fruteiras, tem peixe, leite, a carne de porco também é daqui. A gente usa o que produz e ainda vende um pouco”, explica a Irmã.
A casa de Acolhimento Souza Araújo se transforma, aos poucos, em um lugar de permanência, como observou o dr. José Furtado. “A tendência é que isso aqui vire mais uma casa de idosos, porque os doentes vão diminuindo… e não vai mais ser necessário como antes”, avalia.

Ainda assim, o que se percebe é o cotidiano, feito de convivência e memória.
Na varanda, dona Iolanda segue regando suas plantas; na mesa, o dominó continua; nos quartos, as histórias permanecem organizadas em fotos e objetos.









