
Um relatório científico produzido por pesquisadores da Iniciativa MAP divulgado no fim de abril envia um sinal de alerta para o Acre e toda a região de fronteira com Peru e Bolívia. O documento aponta que 2026 pode ser marcado por seca severa, ondas de calor intensas e aumento significativo das queimadas, com impactos diretos na saúde da população e no meio ambiente.
A Região MAP é uma iniciativa trinacional de cooperação na Amazônia Sul Ocidental, abrangendo Madre de Dios (Peru), Acre (Brasil) e Pando (Bolívia). Criada por volta de 1999/2000, visa promover o desenvolvimento sustentável, integrar fronteiras e enfrentar desafios ambientais comuns, como o desmatamento e mudanças climáticas, em uma área de aproximadamente 310 mil km².
Segundo o documento, um comunicado da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA), de 13 de abril de 2026, indicou mais de 60% de probabilidade de formação de um novo El Niño já entre maio e julho, com intensificação ao longo de 2026 e início de 2027. O grau de intensificação ainda é incerto com probabilidades iguais de ser moderado, forte e muito forte até o fim do ano. Em fevereiro, porém, o alerta de um El Niño costeiro já tinha se estabelecido na costa sul-americana
O fenômeno climático, associado ao aquecimento das águas do Pacífico, historicamente provoca períodos de estiagem na Amazônia. Em anos recentes, como 2015 e 2023, eventos semelhantes resultaram em secas extremas e aumento dos incêndios florestais.
Fumaça pode reduzir expectativa de vida
Um dos pontos mais preocupantes do relatório é o impacto direto das queimadas na saúde pública. Segundo o estudo, a exposição prolongada à fumaça pode estar reduzindo a expectativa de vida da população em até 2 a 3 anos na região. A poluição do ar causada pelos incêndios é considerada uma crise recorrente na Amazônia, com efeitos mais graves entre crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias.
Além do El Niño, os pesquisadores destacam que o aquecimento global tem intensificado os efeitos climáticos extremos. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera aumentou cerca de 16% desde 1998, ampliando a retenção de calor e favorecendo eventos como secas prolongadas e ondas de calor. Na prática, isso significa que eventos atuais tendem a ser mais severos do que no passado, elevando o risco de: escassez de água, incêndios florestais, prejuízos à produção rural e impactos à saúde humana.
“Este El Niño poderá ser agravado por temperaturas mais altas e/ou ondas de calor causadas pelo aumento de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, é fundamental desenvolver estratégias de médio e longo tempo para minimizar os impactos do aquecimento regional que afeta a produtividade de ecossistemas naturais e agroecossistemas, o abastecimento de água e as demandas para energia, tanto em escala regional quanto local”, diz o estudo.
Recomendações e cobrança por ação imediata
O relatório alerta ainda que fatores locais, como desmatamento, uso do fogo na produção rural e atividades como pecuária e mineração, podem agravar a situação, criando condições para crises rápidas de falta de água e aumento dos focos de incêndio. Os pesquisadores também destacam que regiões com características específicas, como o Acre, podem sofrer efeitos mais intensos devido à combinação entre clima e ação humana.
Diante do cenário, o documento apresenta uma série de recomendações, entre elas: fortalecimento do sistema de saúde para lidar com doenças relacionadas ao calor e à fumaça, criação de planos de contingência para abastecimento de água, intensificação do combate às queimadas, ampliação do monitoramento da qualidade do ar e preparação de comunidades vulneráveis, incluindo populações indígenas. Os autores defendem que as medidas precisam ser adotadas de forma imediata, considerando inclusive cenários mais extremos, mesmo que a probabilidade seja menor.








