
A violência sexual contra crianças e adolescentes no Acre tem um perfil claro e preocupante: atinge principalmente meninas e, em muitos casos, começa ainda na infância. É o que revela relatório comparativo da Polícia Civil divulgado na última quinta-feira, 30 de abril, com dados coletados e analisados pelo Departamento de Inteligência, por meio da Coordenação de Estatística e Análise de Dados (COEAD).
O levantamento reúne informações referentes aos anos de 2024, 2025 e 2026, com dados parciais contabilizados até 31 de março deste ano e mostra que o crime mais recorrente é o estupro de vulnerável — aquele praticado contra menores de 14 anos. Foram 759 vítimas em 2024 e 652 em 2025, números que superam com ampla margem outros tipos de violência sexual registrados no estado. Em 2026, entre janeiro e março foram registrados 123 crimes dessa natureza.
Confira neste link os dados completos do levantamento
O perfil das vítimas se repete ao longo dos anos analisados. A maioria é do sexo feminino e está na faixa dos 12 aos 17 anos. Ainda assim, os dados chamam atenção para a presença significativa de casos envolvendo crianças menores de 11 anos, o que evidencia que a violência começa cedo e atinge públicos ainda mais vulneráveis.
A maior parte das ocorrências está concentrada em Rio Branco e região, mas o interior também apresenta números relevantes, especialmente nos casos de estupro de vulnerável. O cenário aponta que a violência não está restrita a um único território, exigindo ações coordenadas em todo o estado.
Diferente do que se imagina, os registros mostram que muitos casos ocorrem durante o dia, principalmente nos períodos da manhã e da tarde. O dado quebra a ideia de que esse tipo de crime acontece apenas à noite e sugere que, em muitos casos, a violência ocorre em ambientes próximos à rotina das vítimas.
Além do estupro de vulnerável, o relatório também aponta: estupro com 125 vítimas em 2024 e 75 em 2025; importunação sexual, que apresentou crescimento, passando de 92 casos em 2024 para 100 em 2025. Os números de 2026 ainda são parciais e correspondem apenas aos primeiros meses do ano.
O que os dados revelam e os caminhos para o enfrentamento

Mais do que números, o levantamento evidencia um padrão: a violência atinge majoritariamente meninas; começa ainda na infância; ocorre em diferentes horários e regiões. Para especialistas, esse tipo de cenário reforça a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas à prevenção, proteção e acompanhamento das vítimas.
O próprio relatório ressalta que os dados se baseiam em ocorrências registradas, o que indica que os números podem ser ainda maiores diante da subnotificação, comum em crimes dessa natureza. Diante do cenário, o fortalecimento de ações integradas entre segurança pública, educação, assistência social e rede de proteção aparece como essencial para reduzir os casos e garantir acolhimento às vítimas.
Em publicação institucional, o delegado-geral da Polícia Civil do Acre, Pedro Buzolin, explica que o levantamento funciona como ferramenta estratégica para direcionar ações da instituição.
“Esse trabalho técnico nos permite compreender melhor a dinâmica desses crimes e direcionar esforços de investigação, prevenção e repressão de maneira mais eficiente. A proteção de crianças e adolescentes é prioridade absoluta da Polícia Civil, e seguiremos atuando com rigor no enfrentamento a esses delitos”, destacou.
Programa Bem-Me-Quer
Ainda no material de divulgação dos dados pela Polícia Civil, a coordenadora de Proteção aos Grupos Vulnerabilizados e do Programa Bem-Me-Quer, delegada Juliana De Angelis, destaca que o enfrentamento a esse tipo de crime exige atuação articulada e acolhimento especializado.
“Os dados apresentados reforçam uma realidade que exige atenção permanente e atuação integrada de toda a rede de proteção. O enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes vai além da investigação criminal, envolve acolhimento humanizado, escuta qualificada e medidas efetivas de proteção às vítimas”, afirmou.
Além das ações contínuas de enfrentamento, a Polícia Civil do Acre integrará, a partir do dia 4 de maio, as ações da Operação Caminhos Seguros, mobilização nacional coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública voltada ao combate à exploração e violência sexual contra crianças e adolescentes.
Durante o período da operação, a PCAC atuará com reforço investigativo, cumprimento de diligências e trabalho integrado com demais órgãos de segurança e da rede de proteção à infância e adolescência.







