A morte do motorista de aplicativo Rony Cleber Silva de Alencar, de 36 anos, em uma colisão entre duas motocicletas na BR-364, em Rio Branco, recoloca em evidência um problema que vai muito além de um acidente isolado. O caso, ocorrido na última quinta-feira (3), deixou ainda outras duas pessoas gravemente feridas e chama atenção para o aumento das mortes no trânsito acreano, especialmente em um cenário marcado pela forte presença das motocicletas.
Rony conduzia uma Honda CG 160 e levava uma passageira quando, segundo relatos de testemunhas, iniciou uma mudança de faixa nas proximidades da Universidade Federal do Acre (Ufac). A motocicleta teria sido atingida por uma Honda CB 500 que seguia no mesmo sentido.
As três pessoas envolvidas foram lançadas ao asfalto e socorridas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Rony sofreu ferimentos graves e morreu após uma parada cardiorrespiratória no Pronto-Socorro de Rio Branco. A passageira, Luane Ferreira Castelo, de 21 anos, sofreu múltiplas fraturas e precisou ser entubada, enquanto o outro motociclista, Moisés Sena Souza, de 25 anos, teve ferimentos no rosto e escoriações. A dinâmica da colisão ainda é investigada.
A tragédia encontra um cenário preocupante nos dados do Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento mostra que o Acre registrou 137 mortes associadas a sinistros no transporte terrestre em 2024, contra 95 no ano anterior. O aumento foi de 44,2% em apenas um ano, colocando o estado novamente em um patamar próximo dos períodos mais letais da série histórica.
Ocorrências e mortes
A evolução dos números ajuda a dimensionar a mudança. O Acre havia chegado a 92 mortes em 2021, o menor resultado da série recente. Foram 101 em 2022 e 95 em 2023. Em 2024, porém, o indicador saltou para 137 óbitos — crescimento de 48,9% em relação a 2021 e de 22,3% quando comparado a 2019.
A taxa de mortalidade acompanhou a mesma trajetória. Depois de atingir 10,8 mortes por 100 mil habitantes em 2021, o índice subiu para 11,9 em 2022, recuou ligeiramente para 11,1 em 2023 e chegou a 15,9 em 2024, uma alta de 43,2% em apenas um ano.
O dado é particularmente significativo porque ocorre em um estado que, no mesmo período, conseguiu reduzir de maneira expressiva os homicídios. Ou seja, enquanto a violência letal provocada pelo crime apresentou forte recuo, as mortes provocadas por sinistros de trânsito caminharam na direção contrária, conforme já foi destacado anteriormente pelo Portal Acre.
A motocicleta no centro do problema
O próprio Atlas aponta a expansão das motocicletas como um dos elementos importantes para compreender o crescimento das mortes no trânsito brasileiro. O fenômeno tem peso especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a motocicleta se tornou um instrumento essencial de mobilidade e também de trabalho, inclusive para trabalhadores de aplicativos.
No Acre, essa realidade é facilmente percebida nas ruas de Rio Branco e também nos municípios do interior. A motocicleta representa, para muitas famílias, uma alternativa ao transporte coletivo limitado e aos custos de manutenção e combustível de automóveis. Ao mesmo tempo, coloca trabalhadores e passageiros diretamente expostos em colisões, quedas e atropelamentos.
O acidente da BR-364 reúne justamente algumas dessas características: dois veículos de duas rodas, três pessoas envolvidas e um motorista que trabalhava com aplicativo. O caso mostra como uma ocorrência de poucos segundos pode produzir consequências que ultrapassam o local do acidente — uma morte, duas pessoas hospitalizadas e uma família atingida pela perda.
Rony deixou uma filha de 13 anos, que já havia perdido a mãe e atualmente é criada pela avó paterna em Santa Catarina, segundo familiares ouvidos pela imprensa. O número de 137 mortes registrado pelo Atlas não é, portanto, apenas uma estatística. Cada ocorrência representa uma vida interrompida e, frequentemente, famílias que passam a conviver com consequências econômicas, emocionais e sociais.
A sequência dos dados também deixa um alerta, especialmente por ser um ano de eleições. Depois de alguns anos de redução, o trânsito voltou a matar mais no Acre. E, diante da presença cada vez maior das motocicletas na mobilidade e no mercado de trabalho, reduzir essa estatística exigirá mais do que campanhas ocasionais de conscientização. Segurança viária, fiscalização, infraestrutura e proteção aos motociclistas precisam voltar ao centro da discussão pública e da pauta política no estado.







