Rio Branco, 2 de novembro de 2026.

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Alto Acre concentra produção de castanha e borracha, mas enfrenta dificuldades para agregar valor

A importância do Alto Acre para o extrativismo estadual contrasta com os desafios enfrentados pelos produtores para ampliar a renda e fortalecer a atividade econômica dentro da própria região. Formada por Assis Brasil, Brasiléia, Epitaciolândia e Xapuri, a microrregião concentra mais da metade da produção acreana de castanha-do-brasil e borracha, mas ainda enfrenta obstáculos para avançar no beneficiamento e na industrialização desses produtos.

Os dados fazem parte do estudo Economia e vocações da Microrregião de Brasiléia, divulgado em outubro de 2026 pelo Fórum Empresarial do Acre, com elaboração da Fundação de Apoio e Desenvolvimento ao Ensino, Pesquisa e Extensão Universitária no Acre (Fundape). O levantamento reúne informações do IBGE e de outros órgãos, além de entrevistas realizadas nos quatro municípios.

Em 2024, a microrregião produziu 5.014 toneladas de castanha-do-brasil, o equivalente a 50,4% das 9.947 toneladas registradas em todo o estado. O valor da produção alcançou R$ 29,6 milhões, correspondente a 50,5% do total acreano. Xapuri liderou o ranking estadual, com 2.085 toneladas, seguido por Brasiléia, com 1.709, e Epitaciolândia, com 1.069 toneladas. Assis Brasil registrou 151 toneladas.

Apesar da participação expressiva, a produção regional recuou 23,7% entre 2014 e 2024, passando de um volume superior a 6,5 mil toneladas para pouco mais de 5 mil. A queda foi um pouco menor que a registrada em todo o Acre, de 27,3%, mas evidencia a necessidade de fortalecer a cadeia produtiva.

Um dos principais entraves está no beneficiamento. A castanha recebida pela cooperativa regional em Brasiléia é encaminhada para uma unidade em Rio Branco, onde passa pelo processamento. Parte do produto retorna beneficiada para comercialização local. O deslocamento até a capital e de volta representa uma etapa adicional na logística, enquanto gestores municipais defendem a instalação de estruturas de beneficiamento no interior para gerar empregos e manter uma parcela maior da renda na região.

O estudo também aponta diferenças significativas no preço recebido pelos extrativistas. Segundo informações levantadas nas entrevistas, uma lata de castanha podia alcançar cerca de R$ 130 quando entregue diretamente ao comprador, mas era negociada por R$ 80 a R$ 90 quando retirada pelo intermediário no ramal. A diferença, estimada entre 31% e 38%, está relacionada ao transporte assumido pelo comprador.

Outro aspecto destacado é a concorrência de compradores bolivianos e peruanos, que, segundo relatos incluídos no levantamento, chegam a adquirir a produção antecipadamente e realizar pagamentos à vista. O relatório também observa que a maior parte da castanha acreana exportada segue com casca: em 2025, esse percentual chegou a 93,9% do volume comercializado pelo estado no exterior.

Borracha depende de um único comprador

A borracha apresenta uma concentração produtiva semelhante. Em 2024, os quatro municípios produziram 397 toneladas, equivalentes a 51,6% das 769 toneladas registradas no Acre. Xapuri respondeu pela maior parcela, com 255 toneladas, seguido por Brasiléia, com 122, Assis Brasil, com 16, e Epitaciolândia, com quatro toneladas.

O valor da produção regional chegou a R$ 7,6 milhões, dos quais R$ 4,8 milhões foram registrados em Xapuri. O estudo identifica uma retomada da atividade a partir de 2017, associada à compra de borracha nativa da Reserva Extrativista Chico Mendes pela fabricante de calçados Veja, que passou a adquirir o produto em maior escala a partir de 2018.

Entretanto, a cadeia permanece dependente de um único comprador. Conforme o levantamento, toda a borracha nativa da reserva é comercializada com essa empresa, enquanto a remuneração dos seringueiros também depende de subsídios públicos e de pagamentos pelo serviço socioambiental.

A estrutura industrial instalada em Xapuri representa outro desafio. A fábrica Natex, que chegou a produzir preservativos com matéria-prima da região, está parada desde 2021, segundo o estudo. A unidade tinha capacidade instalada para produzir cerca de 100 milhões de preservativos por ano, mas não está em funcionamento.

O relatório aponta que a ampliação do número de compradores e a avaliação das condições para reativar o processamento industrial estão entre as medidas que poderiam fortalecer a cadeia e reduzir a dependência comercial.

Estudo propõe medidas para fortalecer as cadeias

Entre as recomendações apresentadas estão a instalação de postos cooperativos de compra de castanha nos ramais de maior produção, com pagamento no ato, e a avaliação da viabilidade de estruturas regionais para secagem, triagem e embalagem do produto.

Para a borracha, o documento propõe comparar a produção registrada com o volume efetivamente adquirido pela empresa compradora, identificar quanto fica fora dos contratos e avaliar se a estrutura da Natex poderia processar essa produção.

O levantamento também destaca a importância da recuperação dos ramais, especialmente em Xapuri e Brasiléia. O primeiro município possui aproximadamente 1.800 quilômetros de estradas vicinais, enquanto o segundo tem mais de dois mil quilômetros sob responsabilidade municipal. As condições dessas vias influenciam diretamente o transporte da produção e o acesso dos trabalhadores rurais aos compradores.

A microrregião de Brasiléia reúne cerca de 75,7 mil habitantes e registrou Produto Interno Bruto de R$ 2,54 bilhões em 2023, equivalente a 9,6% da economia acreana. Para o estudo, o fortalecimento das cadeias extrativistas passa não apenas pelo aumento da produção, mas também pela ampliação do beneficiamento local, pela diversificação dos compradores e pela melhoria da infraestrutura de transporte.

O objetivo é fazer com que uma parcela maior do valor gerado pela castanha e pela borracha permaneça nos municípios produtores, contribuindo para a geração de renda e oportunidades de trabalho no Alto Acre.

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