
Quando uma criança olha para a professora e diz que, quando crescer, quer ser faixa-preta e ser igual a ela, a conquista deixa de ser apenas individual. É assim que a professora de jiu-jítsu Helisânia Rodrigues de Lima passou a enxergar o significado de ter se tornado, aos 33 anos, a primeira mulher de Xapuri a alcançar essa graduação na modalidade.
Depois de anos de dedicação ao esporte e uma década vivida entre treinos e competições em Rio Branco, Helisânia voltou sua experiência para a formação de novos praticantes em Xapuri. Hoje, além de liderar o CT Monster no município e atuar também como instrutora de Muay Thai, ela está à frente de um projeto de jiu-jítsu que já atende 80 crianças e tem como meta chegar a 100.
A faixa-preta representa, para Helisânia, o resultado de uma trajetória que exigiu anos de dedicação, competições e muita disciplina. Ela destaca que chegar a esse nível não acontece rapidamente e exige principalmente persistência e continuidade.
Mais do que uma graduação dentro da arte marcial, a conquista também representa a ocupação de um espaço que durante muito tempo teve predominância masculina. Para ela, o crescimento da presença feminina mostra que as mulheres conquistaram seu espaço e vêm ganhando cada vez mais respeito dentro da modalidade.
“A gente sabe que não é fácil, são anos de dedicação, de muito trabalho, de muitas competições. Eu me sinto honrada em ser faixa-preta e ter chegado até aqui. Para mim é muito especial poder compartilhar esse meu conhecimento para outras pessoas”, diz.
A experiência adquirida ao longo dessa trajetória agora ganha outro sentido. Em vez de permanecer restrita às suas próprias competições, ela passa a ser compartilhada com os alunos.
Muito além da luta
É justamente nessa passagem da atleta para a professora que a conquista ganha uma dimensão social. O projeto desenvolvido em parceria com o município atende crianças que têm no tatame não apenas a oportunidade de aprender uma modalidade esportiva, mas também de incorporar valores que, segundo Helisânia, devem acompanhar os alunos para além das aulas.

As atividades começam com uma oração e seguem com ensinamentos sobre respeito, disciplina e convivência. A saudação ao professor e os comportamentos aprendidos durante o treinamento, explica ela, precisam ultrapassar os limites do tatame e chegar à escola e à família.
“O jiu-jítsu vai muito além disso”, afirma, referindo-se à ideia de que a modalidade seria apenas uma luta.
A professora faz questão de estabelecer também uma diferença clara entre aprender uma arte marcial e aprender a brigar. No projeto, as crianças são orientadas a não utilizar aquilo que aprendem para resolver conflitos por meio da violência.
Segundo Helisânia, esse ensinamento já aparece no comportamento dos próprios alunos. Quando são provocadas, algumas crianças respondem dizendo que estão treinando jiu-jítsu justamente para se tornarem pessoas melhores.
“Eu falei que eu não posso porque eu estou treinando jiu-jítsu e que eu preciso ser uma pessoa melhor”, relata, reproduzindo uma resposta dada por um de seus alunos.
A professora que virou referência

A responsabilidade aumenta à medida que os alunos passam a enxergar Helisânia como exemplo. A própria professora conta que já ouviu das crianças que querem chegar à faixa-preta e ser como ela.
“Professora, quando eu for faixa-preta eu quero ser igual à senhora”, dizem alguns alunos.
Para Helisânia, esse reconhecimento impõe uma responsabilidade permanente. Ela sabe que sua postura dentro e fora do tatame passou a fazer parte do processo educativo dessas crianças.
“É muita responsabilidade, principalmente para as crianças. A gente está demonstrando aí sempre ter respeito, empatia, tudo isso”, reforça.
A faixa-preta, portanto, não representa para ela um ponto de chegada. É também uma espécie de compromisso com aqueles que estão começando.
Projeto nasceu de uma ideia simples
A iniciativa que hoje reúne dezenas de crianças começou a partir de uma conversa entre praticantes de Muay Thai. Helisânia conta que, durante os encontros aos sábados, duas de suas alunas, que trabalham no CRAS, falaram sobre as atividades desenvolvidas com as crianças.
Foi então que surgiu a ideia de aproximar esse público do jiu-jítsu. A proposta foi levada à Secretaria responsável e avançou rapidamente até se transformar no projeto. A estrutura recebida também ajudou a dar consistência à iniciativa, incluindo materiais e kimonos de qualidade, segundo a professora.
Agora, com 80 crianças atendidas e a perspectiva de completar a primeira meta de 100 alunos, Helisânia vê a própria conquista como parte de algo maior.
“Se eu já amava treinar e competir, tudo se torna mais forte e mais importante agora. Hoje eu quero passar isso tudo para os meus alunos”, afirma, deixando uma mensagem de que a história da primeira mulher faixa-preta de jiu-jítsu de Xapuri passa a ter significado muito maior.












