
Durante muito tempo, a sabedoria popular resolveu o problema dos golpes com uma frase curta, prática e um tanto cruel: “O golpe tá aí, cai quem quer”.
Era quase um diagnóstico, uma sentença e um julgamento moral. Se alguém caísse, pronto: faltou atenção, sobrou ingenuidade e, aparentemente, o cidadão tinha acordado naquele dia com vontade de perder dinheiro.
O curioso é que o sujeito que nunca cairia em golpe costuma dizer isso com a mesma segurança de quem nunca pegou uma gripe e já se considera especialista em imunologia.
Mas o mundo mudou, meu caro. E o golpista também fez atualização de sistema.
Esqueça aquele vigarista de conversa atravessada, proposta mirabolante e cara de quem venderia a própria mãe em doze prestações. O golpista moderno é tecnológico, articulado e tem uma lábia tão afiada que faria até o William Bonner contratá-lo para umas aulas de oratória.
O golpe da atualidade não quer apenas o seu dinheiro. Ele quer a sua confiança. O sujeito clona vozes, falsifica documentos, imita bancos, reproduz páginas oficiais e constrói histórias tão convincentes que, se resolvesse usar seus talentos para o bem, talvez já estivesse ocupando um cargo de liderança em alguma empresa séria.
Enquanto isso, o cidadão honesto precisa virar uma mistura de perito criminal, analista de segurança digital, detetive particular e fiscal de autenticidade. Chega uma mensagem do banco? Pode ser golpe. O filho pede dinheiro pelo WhatsApp? Pode ser golpe. O entregador manda um link? Pode ser golpe. Uma ligação informa que sua conta será bloqueada em cinco minutos? Provavelmente é golpe!
Daqui a pouco, até para responder um simples “bom dia”, vamos precisar de reconhecimento facial, certificado digital e duas testemunhas.
E mesmo assim, ninguém está completamente imune.
Isso porque os golpes não exploram apenas a falta de informação. Exploram emoções humanas: medo, pressa, esperança, solidão, generosidade, vergonha e até amor.
O criminoso sabe que uma pessoa assustada pensa diferente de uma pessoa tranquila. Sabe que a promessa de resolver uma dívida, conseguir um emprego ou multiplicar uma pequena economia pode parecer irresistível para quem está precisando desesperadamente de uma saída.
Não é só sobre clicar no link errado. É sobre encontrar alguém no momento certo da sua vulnerabilidade.
E aqui entra uma diferença importante: reconhecer isso não significa defender a falta de cuidado. Pelo contrário. É fundamental desconfiar de ofertas milagrosas, confirmar pedidos de dinheiro por outro canal, não compartilhar códigos de segurança e procurar os canais oficiais das instituições antes de tomar decisões financeiras.
Prevenção continua sendo indispensável. Mas prevenção não pode ser confundida com a ideia de que toda vítima é culpada pelo que sofreu. Tem gente que acredita que jamais cairia em um golpe porque é esperta demais. Essa confiança chega a ser comovente.
Até porque, se inteligência e escolaridade fossem vacinas contra golpes, não existiriam profissionais experientes enganados, empresários lesados, pessoas instruídas fazendo transferências para contas falsas e famílias inteiras enganadas por criminosos bem preparados.
O golpe não escolhe suas vítimas apenas pela inteligência. Escolhe oportunidades, circunstâncias e brechas emocionais.
E existe ainda uma crueldade extra: depois do prejuízo, muitas vítimas sentem vergonha de contar o que aconteceu. Têm medo de ouvir o famoso “eu avisei”, o inevitável “como você caiu nessa?” ou a pergunta que parece simples, mas carrega uma tonelada de julgamento: “Mas você não desconfiou?”.
A culpabilização, além de injusta em muitos casos, ainda ajuda os golpistas. Quanto menos as pessoas falam, menos outras pessoas ficam sabendo das estratégias usadas.
Afinal, não é preciso ser ingênuo para ser enganado. É preciso que alguém engane você. Parece óbvio, mas a obviedade anda em falta por aqui.
Por isso, talvez esteja na hora de aposentar o velho ditado.
Ele já prestou serviços à falta de empatia por tempo suficiente. Porque uma coisa é orientar as pessoas a terem cuidado. Outra é transformar a vítima em ré e deixar o criminoso fora do julgamento.
O golpe tá aí, sim. Mas cair nele não é necessariamente querer, merecer ou ser menos inteligente do que os outros.
Por isso, precisamos aprender e repetir, quantas vezes forem necessárias: a culpa pelo golpe é do criminoso. A prevenção é uma responsabilidade de todos. E a vergonha, definitivamente, não deve ser da vítima.
Lane Valle é jornalista, fonoaudióloga e colaboradora do Portal Acre.







